Diário de Escrita #03 – Dois livros em um?

Se você não me segue no instagram ou no tumblr, provavelmente não sabe que eu anunciei que voltaria a escrever QH dois dias atrás. Isso… não aconteceu, infelizmente. Mas no fim das contas esse atraso foi até bom; ontem e hoje eu trabalhei bastante na história, o que me fez perceber uma coisa: eu vinha tentando escrever dois livros em um só.

Não, não estou falando de gênero diferente ou de personagens demais ou muitas tramas. Como eu já mencionei algumas vezes, escrevi a maior parte do primeiro rascunho de QH durante o NaNoWriMo de 2015, e o fiz sem muito planejamento. O resultado foi bem previsível, pelo menos pra mim, um escritor plotter até o tutano: um rascunho desestruturado, sem ritmo, com personagens sem graça e uma escrita horrenda.

O que, claro, é normal para um primeiro rascunho. O primeiro rascunho de qualquer história tem total permissão para ser um atentado contra a literatura. Não era esse o problema, portanto. O problema só apareceu mesmo quando eu comecei a escrever o segundo rascunho, e ele é bem simples: a história não estava me animando tanto quanto deveria.

Minha primeira reação foi analisar os personagens principais, e havia sim algo ali a ser consertado (aka Valentina, mas disso falo em outro post), mas logo conclui que mesmo com essas coisinhas não tão perfeitas, eu adorava (e adoro) os personagens da história. Também adoro o lugar onde ela se passa (as sete cidades flutuantes), assim como o plot da história, que é cheio de mistério e coisas fantásticas, basicamente meu ponto fraco para livros.

Restava apenas o worldbuilding, e foi justamente aí que eu encontrei o que estava me incomodando.

Já mencionei várias vezes que adoro worldbuilding originais. É uma das razões de eu gostar tanto de The Fifth Season, The Mirror Empire e, recentemente, Ancillary Justice. Mundos diferentes, que fogem completamente do que vemos normalmente em SFF, são também meu ponto fraco. E o mundo de QH estava meio morno mesmo. Não ruim, acredito; afinal de contas, eu gosto bastante da ideia das cidades flutuantes e da superfície tomada por monstros, mas… não é exatamente disso que estou falando.

Sempre que vejo entrevistas com escritores, há sempre a pergunta de quem foi que te inspirou? e isso fazia com que eu me perguntasse quem tinha me inspirado. O Senhor dos Anéis, certamente, mas hoje em dia o que eu escrevo é, de certa forma, extremamente diferente de qualquer coisa que Tolkien fez (a começar pelo fato de que o homem hétero cis branco é bem raro entre meus personagens principais). Mas fora ele… bem, só influências de jogos e filmes, nenhuma forte o bastante para eu dizer me inspirei nisso aqui! Logo, durante a maior parte dos meus anos como escritor, eu sabia que queria ter algo diferente nas minhas histórias, mas eu não sabia exatamente o quê. Foi só ao ler The Mirror Empire eu me toquei o que esse algo era: mundos diferentes, não só do ponto de vista fantasioso como também do social (o que é meio estranho, já que hoje eu poderia dizer que Hurley e Jemisin são minhas maiores influências, mas na verdade o que rolou foi reconhecimento, não influência. Eu venho escrevendo há quase 10 anos, e li Hurley ano passado e Jemisin esse ano. Ou seja, foi mais um momento eureca mesmo).

Não é difícil ver isso nas minhas histórias. A grande maioria (e por grande maioria quero dizer todas, menos QH) não tem nenhuma sociedade onde sexismo, homofobia, transfobia, etc, existem/são a norma, ou essas sociedades não são o foco da história. Nenhuma se passa em uma época pseudo-medieval, e boa parte delas tem elementos que tornam o mundo um tanto diferente no quesito funcionamento. E bem… QH não tem isso. O contexto social não é exatamente o da Idade Média (tá mais pros nossos anos 60 ou 70), mas não é do tipo que eu gosto de escrever de verdade. O mundo é legal, mas não tem aquela coisa que o torna diferente que tanto me atrai nas árvores carnívoras e andantes, nas florestas tóxicas e nos prédios vivos de The Mirror Empire, ou nos apocalipses constantes e nos stone-eaters de The Fifth Season, ou ainda nas naves capazes de habitar centenas de corpos de Ancillary Justice. E era isso que eu precisava mudar.

Não o social, já que a sociedade sexista/homofóbica/transfóbica de QH é de certa forma importante para a história e para a construção e desenvolvimento dos personagens principais, mas sim o próprio mundo. A solução foi então pensar em algo diferente – não exatamente original, já que tal coisa é meio impossível nos dias de hoje – para modificar o mundo da história. Um conselho que li por aí me ajudou bastante nessa decisão também: sempre procure novos modos de passar informação para o leitor.

Esse era um dos problemas na falta de singularidade do mundo de QH também. Ex: na primeira versão, os personagens descobrem uma biblioteca secreta na cidade flutuante (lembrando que essas cidades foram construídas por elfos, e os humanos sabem bulhufas sobre elas, isso é, não sabem nem o que as mantém no céu). Mas isso – biblioteca secreta que irá ajudar a desvendar segredos – é super cliché. O que tem de interessante e novo nessa situação?

De forma semelhante, o que tem de interessante e novo nesse mundo?

Comecei a pensar no que eu queria de diferente ao planejar a trilogia lá no final de junho e foi algo até fácil de arranjar. Fiquei bastante feliz com o resultado e isso me animou para terminar o planejamento a tempo de participar do Camp NaNoWriMo de julho. A cena da biblioteca secreta foi totalmente reformulada para passar a mesma informação de um jeito bem diferente, por exemplo, graças às modificações que fiz. Esse novo elemento do worldbuilding estava funcionando maravilhosamente bem.

Mas foi só ao parar agora para reescrever as 32k palavras que tenho para o início que me dei conta que estava tentando escrever dois livros em um: o QH velho, sem essa modificação ao mundo que passou a influenciar o plot em 100%, e o QH novo, com essa modificação super presente. Isso aconteceu principalmente porque eu usei muito o primeiro rascunho como base. Não usei nenhuma das cenas, mas sim as coisas que tinham que acontecer. Problema sendo, obviamente, que o primeiro rascunho não tinha nada desse Novo Elemento ™ e por isso essas 32k palavras não refletem essas mudanças. E, como eu disse, esse Novo Elemento influenciou demais o plot. O passado da vilã mudou graças a ele, assim como a própria história das cidades flutuantes e a origem dos deuses élficos e humanos. O QH modificado é uma história, portanto, completamente diferente em tom, o que tornou as 32k palavras um freakenstein.

Passei esse fim de semana consertando esse freakenstein. Não as palavras em si, claro, mas o outline da reescrita que começarei em breve. Graças a isso, resolvi vários problemas do primeiro rascunho, como a inércia da vilã (que, para minha surpresa – não, eu não havia notado apesar de falar disso em toda santa matéria do Chimeriane – passa o livro todo sem fazer praticamente NADA) e, claro, todo o drama do plot1/plot2 do último diário de escrita.

Ainda falta coisa para fazer, claro (aka a outline nova não-freakenstein do resto do livro), mas tive várias ideias legais nos últimos dois dias que mal posso esperar para inserir na história. Não sei ainda quando voltarei à escrita, mas por enquanto estou bem feliz em continuar meu processo de brainstorming.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s