NaNoPrep #01 – O mundo e a ideia

Olá, gente! Hoje não irei postar um diário da escrita, mas sim um post (meio gigante) de uma série que irei fazer esse mês sobre minha preparação para o NaNoWriMo 2016. Não irei usar o segundo rascunho de Queen of Hearts para o NaNo desse ano justamente porque sei que NaNo não é para escrever bem, mas sim para escrever muito aka escrever o primeiro rascunho. Por isso decidi usar uma velha ideia minha que por enquanto estou chamando de Serpentkiller.

O post de hoje é sobre como cheguei à premissa que usei e sobre como adaptei o mundo para a história.


Já comentei aqui por aí que nunca planejo um elemento de uma história todo de uma vez só, o que quer dizer que eu tenho uma ideia, penso um pouquinho sobre possíveis personagens, pulo pra worldbuilding, pulo pra plot, volto pra personagem… enfim, é uma confusão. Para meu projeto pro NaNo desse ano, porém, as coisas foram um tantinho mais fáceis. Meu projeto se passa no mundo de outra história minha: ODS.

O MUNDO E A IDEIA

ODS (O Olho da Serpente) é literalmente o projeto da minha vida. Passei nove anos escrevendo o primeiro livro (aka escrevendo mil rascunhos pela metade) antes de finalmente aceitar que não estou no nível adequado para escrevê-lo agora (A Canção da Fúria (CF) o nome da série de O Olho da Serpente, tem, afinal de contas, sete livros com pelo menos 10 personagens POVs distribuídos entre eles). Foi essa desistência temporária que me levou a escrever QH no NaNo do ano passado, aliás, mas Serpentkiller não deixou minha mente.

Serpentkiller é uma espécie de prequel de ODS, mas escrevê-lo é um tico mais complicado do que um prequel normal seria, já que a história se passa 2.500 anos antes dos acontecimentos de CF e, bem, CF é literalmente sobre o fim do mundo. Em Serpentkiller, 2.500 anos antes, o mundo está de boa. Nada de terremotos capazes de engolir cidades, tempestades que duram dias ou erupções que dizimam florestas. Esses elementos existem, claro (o mundo, Arzanael, começou a morrer há muito tempo), mas não no nível de CF. Além disso, apesar das duas raças principais da minha história (os attorias e os sournais, antigamente elfos e draanils) serem imortais, apenas *um* personagem de CF aparece em Serpentkiller.

Mas por que isso?

Simples: a Fúria.

Fúria é o nome que os habitantes de Arzanael dão ao cataclismo que rachou o antigo continente. Sabe o mapa dos três continentes de CF que eu postei quase dois anos atrás no Chimeriane? A parte de baixo desse continente. Sabe o mapa de Serpentkiller que postei hoje no Instagram? A parte de cima. A Fúria aconteceu durante uma guerra entre attorias e sournais (conhecida como Guerra da Fúria), e graças a isso boa parte das duas raças acabou ficando presa na parte de baixo desse continente, que rachou novamente para formar os três continentes de CF. Esses attorias e sournais foram o que fundaram os reinos que aparecem em CF e são, no geral, descendentes dos attorias e sournais que aparecem em Serpentkiller. O único link entre as duas histórias, portanto, (além do próprio mundo) é o tal personagem que aparece nas duas.

E esse personagem é o Lieth.


Lieth Maedrion era, nas primeiras versões de ODS, o típico mentor sábio e bonzinho. Era ele quem encontrava Linnea/Nienna, a protagonista de ODS, e a mandava em sua aventura, com o bônus de não passar informações importantes porque “não é a hora certa” e similares. Obviamente, ele não servia pra nada além de ser um infodump ambulante e, percebendo isso, eu (desajeitadamente) tentei lhe dar um pouco mais de profundidade. Lieth teria tido uma mulher e filho antes da Fúria, e como eu não estava com o menor saco de enfrentar um drama de será-que-irei-encontrá-los-de-novo, decidi matar os dois. A mulher teria morrido no nascimento do filho e o filho teria morrido durante a Fúria. Tudo beleza, certo?

Errado.

Ter uma mulher e filho mortos, além de ser uma das únicas pessoas nascidas antes da Fúria, deu sim a Lieth um pouco mais de profundidade. A partir disso eu pude moldar um pouco mais sua personalidade: workaholic, extremamente fechado, gentil mas distante, estupidamente focado em salvar todo santo attoria dos Três Continentes. Mas ainda assim não era o suficiente e depois de ler um pouco sobre tropes, eu percebi que havia feito a coisa mais meh e cliché da existência: matei uma mulher para desenvolver um homem.

A mulher de Lieth (que eu nem sei se chegou a ser nomeada) morre apenas para ser uma fonte de manpain. E, bem, como alguns de vocês provavelmente se lembram, eu comecei a escrever ODS justamente porque estava cansado de histórias onde mulheres não serviam pra nada além de ajudar a desenvolver um homem ou ser o prêmio de um homem. Eu ainda precisava que ela morresse, porém, já que ainda assim eu não queria lidar com o drama todo de será-que-irei-encontrá-los-de-novo, então a solução era dar uma história para ela. Ela não morreria no nascimento do filho dos dois ou qualquer coisa semelhante. A mulher de Lieth teria uma história só dela e seria um personagem completa, mesmo que ela jamais fosse aparecer em CF. Mas como fazer isso?

Por sorte, na época eu participava muito das Competições de Texto (CTs) da Só Webs, uma antiga comunidade de escrita do falecido Orkut (isso foi em 2011/2012, btw). Nessas CTs, uma pessoa dava um tema, algumas palavras obrigatórias e um limite de tempo, e os participantes (qualquer pessoa que aparecesse no tópico podia participar) escreviam um mini-conto/texto com base nesse tema e tendo as palavras obrigatórias. Eu adorava as CTs e honestamente elas são responsáveis por um salto enorme de qualidade na minha escrita. Foi em uma dessas CTs que eu escrevi um mini-conto/texto sobre uma elfa que se sacrificava para matar um dragão que vinha aterrorizando seu vilarejo.

Eu nem lembro qual era o tema dessa CT ou se eu acabei no pódio com o mini-conto. Mas aquela história ficou martelando na minha mente durante um bom tempo. De imediato eu a ambientei no mundo de CF, Arzanael, e até cheguei a escrever algumas páginas. Nessa versão-teste, a mulher, uma elfa que decidi nomear Noelle, partiria em busca do dragão após ter seu marido/namorado/whatever assassinado por ele. Tudo certo, né?

Errado de novo.

Primeiro, porque não faz sentido para os dragões estarem aterrorizando os elfos de Arzanael (ou os attorias hoje em dia). Arzanael é um mundo feito de sombra e chamas, com dragões e attorias representando as chamas e serpentes gigantes e sournais representando as sombras. Dragões (e serpentes gigantes) são sim animais selvagens, e attorias e sournais domam dragões de vez em quando, mas ainda assim é praticamente impossível que o dragão ataque um vilarejo attoriano. Ou que uma serpente ataque uma cidade sournai. Simplesmente não acontece.

Mas uma serpente gigante atacando um vilarejo attoriano? Isso sim faz sentido.


A grande questão de Arzanael é que dragões e serpentes gigantes se odeiam, da mesma forma que o deus Dragão e a deusa Serpente se odeiam e que (segundo os próprios attorias e sournais) attorias e sournais se odeiam. Inimigos naturais, por assim dizer. A primeira Guerra da Fúria, portanto, aconteceu lá no início do mundo e não foi entre attorias e sournais, mas sim entre dragões e serpentes gigantes.

O mundo quase acabou antes mesmo de começar, attorias e sournais (e todos animais/plantas) quase foram extintos por estarem, sabe, no mundo, e por centenas de anos a superfície de Arzanael foi um campo de batalha com vulcões entrando em erupção, terremotos, maremotos e tempestades de sombras. Dragões e serpentes gigantes são as “válvulas de escape” das forças primárias de Arzanael (chama e sombra) e quando eles ficam furiosos, Arzanael corre o risco de entrar em colapso.

Mas os dragões venceram e as serpentes gigantes foram aprisionadas debaixo da terra. A superfície se acalmou, attorias e sournais evoluíram e se tornaram o que são hoje, e as serpentes passaram a ser quase uma lenda. Apesar de estarem presas, porém, eu poderia fazer com que fosse possível que uma ou outra escapasse de vez em quando. Logo, a fera que a elfa/attoria teria que matar não seria um dragão, mas sim uma serpente gigante que escapou do confinamento.

Já estava prestes a começar outra versão-teste dessa história (na época eu queria que fosse um conto ou uma novella) quando me veio a solução para meus problemas: e se Noelle fosse a mulher de Lieth?

O MUNDO E A IDEIA REFINADOS

Decidido que Noelle é a mulher de Lieth, as coisas ficaram bem mais fáceis. Agora sei exatamente onde a história se passa (500 anos antes da Fúria para que Lieth não seja tão velho assim em CF) e quando parei hoje para finalmente passar a ideia e o mundo a limpo, portanto, eu já tinha bastante de ambos. Os attorias são uma raça que não curte muito a ideia de ter uma família real, governo ou coisa do tipo (em oposição aos sournais que são tipo uma raça abelha/formiga); é justamente a Guerra da Fúria entre eles e os sournais que os forçam a se unificar sob uma única bandeira para poder se defender, mas como já falei, Serpentkiller acontece antes disso. Logo, Lieth e Noelle viveriam em um mundo onde cidade-estados e vilas independentes são a norma. Há sim famílias poderosas que exercem alguma influência – os Maedrion, attorias da linhagem do sol, e os Saedra, da linhagem da lua, por exemplo – mas não há uma autoridade certa e máxima. Attorias vivem como querem e resolvem seus problemas sem intermediação de praticamente ninguém.

(O que obviamente não dá certo quando há uma raça super organizada e disciplinada armada até os dentes como os sournais batendo na sua porta, o que os attorias perceberam eventualmente).

O mini-conto era sobre uma mulher se sacrificando para salvar seu vilarejo, mas Lieth é um Maedrion e os Maedrion são incrivelmente poderosos e definitivamente não moram em vilarejos. Eles seriam os “governantes” de uma cidade maior, provavelmente a maior cidade attoriana, e apesar de Lieth ser um parente bem distante dos Maedrion em seu trono, faria mais sentido que ele morasse por lá mesmo. Como fazer para ele e Noelle se conhecessem?

Eu poderia fazer com que Lieth saísse por aí viajando e por acaso a encontrasse, claro, mas embora Lieth apareça bem pouco em Serpentkiller (pelo menos eu acho que ele irá aparecer pouco) eu queria deixar bem claro a diferença entre o Lieth de Serpentkiller e o de CF. Em CF Lieth vive viajando para resolver os problemas de Narovia (reino attoriano dos Três Continentes), sendo um misto de espião e diplomata que tem pouquíssimo tempo para qualquer coisa que não seja seu trabalho. Em Serpentkiller, portanto, eu queria que ele fosse bem diferente disso, já que é justamente a morte de Noelle e do filho dois + o exílio forçado causado pela Fúria que faz com que ele mude bastante. O Lieth de CF é, como eu já disse, distante, fechado, mas gentil; o de Serpentkiller é mais amigável, aberto e descontraído, além de não gostar nem um pouco de batalhas ou de perambular por aí.

Se o Lieth de CF é um guerreiro, espião e diplomata, o de Serpentkiller é um escolar e um estudioso. Noelle é a guerreira de Serpentkiller, não Lieth, o que abre uma possibilidade interessante sobre como Lieth lidou com sua morte: se tornando como ela.

Mas se Noelle é uma guerreira, que tal fazer dela a chefe da guarda da cidade dos Maedrion? (Cidade, aliás, que se chama Driatta) E se Noelle fosse de um pequeno vilarejo, Tiena, e tivesse se mudado para Driatta por algum motivo? No caso, ela deixaria Driatta para trás quando soubesse do surgimento da Serpente, determinada a proteger – ou vingar – seu vila natal.

Com isso, eu já tenho a ideia central de Serpentkiller definida:

Uma guerreira attoriana deixa a cidade onde mora – e sua família – para trás para proteger seu vilarejo natal de uma serpente gigante.

Graças a isso eu já tenho uma noção de como a história começa (com Noelle e Lieth vivendo em Driatta + eles recebendo a notícia do ataque da Serpente) e termina (Noelle enfrentando a Serpente em Tiena). O único problema, claro, é que essa premissa não é muito interessante. Quantas histórias sobre pessoas partindo para tal lugar para derrotar tal monstro você conhece? Várias. A única diferença aqui é que geralmente essas histórias são sobre um homem ou um grupo de homens, e não sobre uma mulher casada e com filho. Mas fora isso, não há nada de original na premissa.

O que mais me incomodou com essa premissa de Serpentkiller, porém, foi a própria Noelle. Certo, dá pra entender uma pessoa tentando salvar seu vilarejo natal, mas só tem a Noelle pra fazer isso? Por que ela deixaria seu marido e filho pequeno para matar uma serpente gigante sozinha? Qual a motivação dela? Só salvar seu vilarejo? Essa é uma motivação bem fraca, não importa o quão importante o vilarejo e as pessoas nele sejam para Noelle. Eu teria que pensar em algo mais interessante para motivá-la.

Por sorte, não foi preciso pensar muito para arranjar uma motivação: culpa.

E se Noelle fosse de algum modo responsável pelo ataque da Serpente? E se ela se culpasse por isso? E se seu vilarejo já estivesse destruído e a Serpente estivesse avançando contra outros vilarejos, aumentando ainda mais sua culpa? E se ela se sentisse obrigada a parar a Serpente?

Isso deixaria as coisas mais interessantes, claro, mas por que diabos ela seria a culpada pelo ataque da Serpente?

Novamente, a resposta me veio bem rápido: ela teria poupado a Serpente anos antes. Quando pequena, Noelle teria caído no covil da Serpente e, surpreendentemente, a Serpente decidiu não matá-la. Na verdade, a Serpente lhe fez companhia enquanto os pais da garota a procuravam. Quando escapou do covil (uma caverna subterrânea), portanto, Noelle decidiu retribuir o favor e não contou a ninguém sobre a Serpente. Se a descobrissem ali, com certeza chamariam um dos poucos cavaleiros de dragão para acabar com ela.

Mas então, anos depois, puff, a Serpente destrói seu vilarejo.

E Noelle sabe que poderia ter impedido isso.

Essa ideia complementar levantou várias perguntas interessantes para a história. Se serpentes naturalmente odeiam dragões e são conhecidas inimigas dos attorias, por que essa Serpente escolheu poupar a vida de Noelle? E se ela poupou a vida de Noelle, por que está atacando agora, quase trezentos anos depois? Por sorte – ou porque meu subconsciente gosta mesmo de refletir sobre as mesmas coisas – as maiores questões levantadas são as mesmas de CF: são as serpentes realmente maléficas? Os attorias e os sournais são mesmo inimigos naturais? É possível paz entre sournais e attorias e entre serpentes e dragões? O que iniciou essa rixa? Por que ela ainda existe? Como acabá-la?

Com isso, a premissa de Serpentkiller evolui:

Uma garota attoriana é poupada por uma serpente gigante – inimiga mortal de sua raça – e em troca mantém sua existência em segredo, sabendo que os cavaleiros de dragão não hesitariam antes de matá-la. Trezentos anos depois, a serpente gigante deixa seu esconderijo e inicia uma onda de destruição enquanto os dragões estão longe e os attorias se encontram indefesos. A garota, agora uma guerreira da grande cidade de Driatta, deixa seu lar – e sua família – para enfrentar a Serpente que destruiu seu vilarejo, mas que um dia salvou sua vida.

Essa nova motivação da Noelle adiciona várias coisas à história, além de torná-la uma personagem mais interessante. Attorias são ensinados desde cedo que serpentes e sournais são maléficos, mas uma serpente salvou a vida de Noelle – apesar de agora estar destruindo seu povo. Mas só o fato da serpente ter salvado sua vida já faz com que essas certezas – serpentes são maléficas – caíam por terra, ou pelo menos faz com que rachem. Se serpentes são maléficas, por que essa Serpente a salvou? Há algo de errado no modo como attorias tratam e veem serpentes e sournais? Se há, por que eles pensam desse jeito? Quem começou isso?

Como já mencionei em outras matérias, história é um tema que curto muito em meus projetos. Ou, mais especificamente, como história é moldada para controlar o que as pessoas pensam. Dá pra ver isso fácil fácil aqui em Serpentkiller e, bem, lembra da importância do tema? Ao explorar as motivações de Noelle eu já consegui arranjar um para Serpentkiller, mas outros são possíveis também: o que significa ser um monstro, como preconceitos moldam nossas ações, etc. Tudo isso dá um pouco mais de profundidade à história.

No fim das contas, eu já tenho meu mundo e minha ideia central. Agora está na hora de trabalhar um pouco nos personagens, mas isso fica para o próximo post ^^

 

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2 thoughts on “NaNoPrep #01 – O mundo e a ideia

  1. Achei o post bem interessante: é legal ver como uma ideia evoluiu de algo clichê e batido para algo diferente e com um tema interessante (apesar de falar muito sobre morte no que escrevo, gosto também de falar sobre como as pessoas manipulam informações).
    Já tentei participar do NaNoWriMo umas 3 vezes, mas em todas elas acabei me enrolando e perdi. Em parte, claro, por desorganização e procrastinação, mas também porque deixei para planejar e fichar personagens alguns dias antes do evento começar. Acho que vou aproveitar o feriadão para começar a trabalhar no meu projeto desse ano.

    Abraço!

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    1. Fico feliz que tenha gostado! Eu quase desisti da história antes de pensar nas motivações da Noelle, mas ainda bem que não fiz. Hoje em dia Serpentkiller é meu pet project favorito.
      Meu maior problema pra lidar com o NaNo é falta de organização mesmo. Procrastinação seria um também, mas eu passo muito tempo no fórum do NaNo durante novembro, então acabo me animando ao ver o pessoal escrever (sou bem competitivo também, então word wars, sprints, etc, me ajudam muito).

      Abraço!

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