nanoprep #02 – os personagens e o plot

Os personagens de Serpentkiller me vieram de um jeito bem bizarro. Como mencionei lá nas matérias sobre construção de personagens, geralmente escolho quais personagens vou criar ao ver como eles se relacionariam entre si para criar as dinâmicas mais legais. Para Serpentkiller, porém, a coisa foi um tico diferente.

Sabe a Guerra de Canudos? É uma história que eu ouço muito porque minha mãe é de uma cidade perto de onde Canudos (então Belo Monte) ficava, então os parentes todos conhecem e contam. Enfim, sempre que me contam a história ela termina com quatro pessoas de Canudos como as últimas defensoras do arraial diante do Exército Brasileiro, isso após quatro expedições que visavam destruir o lugar (houve outros sobreviventes, mas esses quatro eram do “exército” da cidade). Essas quatro pessoas seriam um velho, dois homens adultos e uma criança/adolescente, estando, claro, contra um exército de 5 mil.

(Que as assassinou assim mesmo, vale frisar.)

Há algum tempo atrás eu estava pensando em como diabos iria arranjar os personagens de Serpentkiller porque não conseguia me decidir entre as opções que eu tinha no momento quando meu avô começou a contar a história da Guerra de Canudos novamente. Meu avô é um contador de histórias MUITO bom (já devo ter falado aqui que foi ele que me influenciou a ler e escrever, aliás), então mesmo já tendo ouvido aquela história pelo menos mil vezes (perks of being baiano), eu me vi total concentrado no que ele falava, principalmente na última imagem: quatro pessoas sozinhas contra um exército enorme com o arraial completamente destruído em volta delas.

Ao final do conto, eu me perguntava duas coisas:

1. Por que diabos ninguém usa a Guerra de Canudos como inspiração para livros de fantasia?

2. Por que eu não faço isso?

PERSONAGENS

Obviamente uma guerra onde o governo manda quatro expedições estupidamente armadas contra um arraial do tamanho de um ovo não é algo que cabe em Serpentkiller, mas a ideia geral daquela imagem final poderia sim ser utilizada.

Quero dizer, e se o inimigo impossível de se vencer não fosse um exército, mas sim um monstro? E se essas quatro pessoas não fossem as últimas defensoras, mas as únicas dispostas a tentar impedir que o monstro continuasse a espalhar caos e violência? Os elementos permaneceriam os mesmos: o inimigo muito maior e invencível, as quatro pessoas se colocando entre esse inimigo e o resto seu povo, o vilarejo destruído pela fúria desse inimigo, etc, etc, etc. Por que não?

(Eu ainda pretendo escrever uma história mais inspirada em Canudos, btw, mas não é algo certo).

Depois de pensar um pouco, decidi diminuir de quatro para três pessoas: um velho, um homem e uma criança. Ou melhor dizendo, uma velha, uma mulher e uma criança.

A mulher obviamente seria Noelle, que partira sozinha de Driatta para derrotar a Serpente em Tiena, seu antigo vilarejo, mas e a criança e a velha? Quem seriam elas?

A criança foi fácil de se resolver: ela seria uma garota trans de 13 anos de um vilarejo também destruído pela Serpente. Essa garota, que escolhi nomear Mia, estaria 100% determinada a se vingar do que aconteceu com sua família e casa, e encontraria Noelle por acaso em sua perseguição à Serpente.

A velha foi um tanto mais difícil. Minha primeira ideia foi fazê-la uma sobrevivente de Tiena e uma espécie de “tutora” ou líder do lugar, mas isso não foi pra frente. Não foi nem por ser um problema da personagem, mas lembra quando eu comentei que desenvolvo personagem e plot juntos? Então.

PLOT

A grande questão da história: se a Serpente é um inimigo assim tão formidável, como diabos Noelle irá vencê-la?

Como mencionei nos posts anteriores, há cavaleiros de dragão em Arzanael, mas em Serpentkiller só existem dois cavaleiros de dragão que são attorias: Siana Saedra e seu dragão Agon (para os anciões da SW/leitores de ODS, Siana seria a antepassada de Eoan, e Agon seria o dragão de Davendria), e Methoras Syzorah (novamente para os leitores de ODS, Methoras é o antepassado de Luhiel) e seu dragão Sethrien. Eles não estão na região em Serpentkiller, então são apenas mencionados por personagens que sugerem chamá-los para lidar com a Serpente. Problema sendo, claro, que o processo de descobrir onde Siana e Methoras estão, ir até eles e eles finalmente virem para Driatta, Tiena e etc, demoraria semanas, semanas nas quais a Serpente continuaria a destruir tudo que vê pela frente. Os únicos outros cavaleiros de dragão conhecidos seriam os sournais, e obviamente que attorias jamais pediriam ajuda para sournais.

É por isso que Noelle decide derrotar a Serpente ela mesma, mas isso ignora o fato de nenhum attoria ou sournai jamais conseguiu matar um dragão ou uma serpente. Domar um dragão? Sim, claro. É algo difícil e muita gente morre tentando, mas matar um dragão ou serpente? Impossível. Noelle sabe disso, então por que diabos ela se lançaria em uma missão suicida que não traria frutos? Veja bem, Noelle com certeza se sacrificaria se isso significasse a morte da Serpente e a segurança de seu povo, mas ela não é estúpida. Se ela vai se sacrificar, ela tem que ter uma chance de fazer esse sacrifício valer a pena antes. Ou seja, ela precisa de uma chance real de matar a Serpente.

Foi aí que me veio a ideia: e se fosse possível domar serpentes?

Sabe aqueles momentos onde tudo passa a fazer sentido? Eu depois que essa ideia surgiu na minha mente.


Me surgiram várias ideias em consequência dessa:

1. Noelle já teria ouvido rumores sobre isso, e ela ouvindo/sabendo desses rumores deve acontecer em alguma cena do primeiro ato.

2. Após o mensageiro chegar em Driatta trazendo notícias do ataque da serpente (seria esse o incidente instigante?), Noelle se lembraria desses boatos.

3. Noelle teria que saber onde ir e com quem falar para saber se esse rumor é verdadeiro. O primeiro plot point da história poderia ser justamente ela deixando Driatta para trás para ir falar com essa pessoa.

Mas quem essa pessoa seria? Eu não queria criar outro personagem já que essa história é um volume único e eu não quero que esse volume único seja gigante (menos páginas = menos espaço para estabelecer e desenvolver personagens).

Foi aí que puf, me veio a ideia de fazer a velha ser essa pessoa. Com isso, várias outras ideias foram se acumulando (umas eu não posso falar, porque daria spoiler para CF), mas no fim das contas eu terminei decidindo que essa velha, chamada Sephis, seria uma espécie de figura folclórica dos attorias. Ela viveria sozinha, isolada, e para a população no geral seria meio que uma maluca, mas na verdade ela tem várias razões para se manter longe de todo mundo. E, claro, ela seria a pessoa supostamente responsável pelos rumores.

PERSONAGENS E PLOT

Ao sentar hoje para decidir a personalidade dos personagens, assim como seus arcos de desenvolvimento, consegui arranjar várias ideias para o plot também.

A primeira veio da própria Sephis. Fiz com que ela não acreditasse muito em attorias e sournais e preferisse viver isolada justamente por condenar o comportamento das duas raças (o porquê de ela achar isso é o tal spoiler pra CF). Assim, quando Noelle vai até ela Sephis não quer nem saber de ajudá-la (já que ela vai ter que deixar sua adorada casa pra trás para fazer isso). Ela acaba indo, claro, e isso abre a oportunidade para seu próprio desenvolvimento como personagem, já que no final do livro ela decide ir morar em Driatta entre os attorias, deixando seus dias de ermita para trás.

A segunda veio da Noelle. A princípio eu tive bastante dificuldade com seu desenvolvimento. Eu sabia, claro, que lá para o final do livro suas opiniões sobre serpentes, sournais, etc, mudariam quase que por completo. Serpentkiller é basicamente sobre o relacionamento entre a Serpente e Noelle e o que isso significa para ambas aka como isso faz com que Noelle reconsidere várias certezas que ela tem. O problema é que embora eu soubesse que Noelle deixaria de acreditar que Todas As Serpentes e Sournais São Horríveis, eu não tinha pensado em estabelecer isso com toda certeza no início. Ou seja, eu teria que começar a história com Noelle afirmando isso veementemente para maior impacto no final da história.

Foi aí que eu tive a ideia de dar uma irmã para a Noelle. Uma irmã avraza.

Como mencionei nos outros posts, attorias e dragões são criaturas das chamas enquanto sournais e serpentes são das sombras. Isso significa que a magia que eles podem usar é literalmente tirada das chamas e sombras no centro do mundo. Attorias só usam, portanto, magia da chama, e sournais usam apenas a magia da sombra. É como eles funcionam.

Mas existem os attorias que usam magia da sombra e os sournais que usam magia da chama. Vale frisar aqui que isso não é uma escolha. É uma afinidade. Esses attorias e sournais simplesmente não conseguem usar a magia da chama/sombra como sua raça o faz. É considerado que eles nasceram de alguma forma “errados” – com uma alma que não deveria ser sua.

(Almas são um Big Deal em Arzanael, já que attorias e sournais descendem de espíritos da natureza e almas são literalmente visíveis em alguns momentos do dia).

Os attorias com “alma” de sournai são chamados de avrazas. Os sournais com “alma” de attoria são os enais.

Problema sendo: tanto attorias quanto sournais matam avrazas e enais assim que é percebido o que eles são, já que a própria existência deles é considerada uma ofensa. Isso quer dizer, claro, que a irmã de Noelle está morta há muito, muito tempo. Avrazas (e enais) geralmente são descobertos ainda jovens, e eliminados o mais rápido possível.

A ideia era que Noelle não fez nada para salvar sua irmã. Okay que na época ela era bem jovem (uns 10, 11 anos), mas a questão é justamente que apesar de adorar sua irmã, Noelle preferiu ficar em silêncio. Ela não questionou o que estava sendo feito ou porquê, justamente porque essa foi a narrativa alimentada a ela desde cedo. Quando ela encontra com a serpente uns dois anos depois, porém, ela decide salvar a serpente. Ou seja, ela salvou uma serpente gigante, mas não sua própria irmã.

E esse é um fato que vem futucando sua mente desde que ele aconteceu. A verdade é, Noelle não fez nada para impedir a morte da irmã, mas tal acontecimento deixou sim uma pulga atrás da sua orelha. Quando ela encontrou a Serpente, portanto, essa dúvida falou um pouco mais alto, mas agora, anos depois, ela ter dado o benefício da dúvida para um monstro é o razão de seu vilarejo estar destruído. Isso obviamente só reforçaria a crença de que sournais e serpentes (e avrazas) são ruins sim, e devem ser evitados. Mas Noelle não acredita nisso 100%. Acreditar nisso seria uma espécie de mecanismo de defesa; afinal de contas, se sournais, serpentes e avrazas são mesmo ruins, ela não poderia – não deveria – ter feito nada para salvar sua irmã, certo?

É algo que, de certa forma, a absolve da culpa que ela sente. Culpa por não ter salvado sua irmã, nesse caso, que convive junto com a culpa por ter salvado a Serpente. No fim das contas, Noelle não quer apenas matar a Serpente; ela quer entender a Serpente; para ela, Serpente acaba se tornando um “avatar” para sua irmã morta, e é sobre isso que o livro é de verdade. Se tudo ocorrer como eu quero, a maior questão do livro não vai ser como Noelle vai matar a Serpente, e sim quem a Serpente é e porque ela fez o que fez.

Para o plot isso simplesmente quer dizer que Noelle e a Serpente precisam se reencontrar o mais cedo possível. A minha ideia original é que o livro fosse mais sobre a jornada até onde a Serpente está, mas a coisa mudou tanto que, como mencionei, o confronto físico com a Serpente não deve ser a parte mais importante. É a interação entre Noelle e a Serpente que é mais importante.

(Essa mudança de foco me deu uma noção do que eu quero que o midpoint seja, mas por enquanto a ideia está confusa demais para colocar no papel.)

Por último tem a Mia. Mia é um caso engraçado porque eu tive a ideia de aproveitá-la para CF, mas não como um personagem presente (como já disse, apenas Lieth aparece em CF e Serpentkiller). Mia é quem irá sair da história sabendo ou pelo menos suspeitando de algumas verdades (Noelle as descobre e morre; Sephis já as conhece, mas tem suas razões para não contar para ninguém) e ela divulga isso tudo em livros. São esses livros, lá em CF, que ajudarão os personagens de lá a descobrir essas verdades.

Portanto, ela vai ter um desenvolvimento um tanto semelhante ao de Noelle; vai de ódio a sournais/serpentes/avrazas principalmente graças ao ataque da Serpente a seu vilarejo para compreensão sobre o que realmente aconteceu.


Com os arcos dos personagens definidos, fica mais fácil começar a trabalhar no plot de verdade; como eu sei o caminho de cada um, posso agora identificar onde na história eu posso colocar as cenas que iram questionar essas crenças e desafiar certos defeitos. Mas, bem, isso fica pro próximo post ^^

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