nanoprep #03 – plot e estrutura

Vocês já devem ter percebido que eu sou fã de estrutura. Desde que comecei a estudar mais sobre o assunto ano passado que venho percebendo as melhoras nos meus personagens, plots, e histórias no geral, e hoje posso dizer que não largo estrutura por nada nessa vida. Com ela eu consigo arranjar um plot para uma história em menos de uma hora.

E foi exatamente isso que fiz hoje com Serpentkiller.

Ao sentar hoje para “descobrir” o plot completo da história, portanto, eu escolhi preencher uma simples lista antes:

(Para saber mais sobre a estrutura que eu uso, clique aqui).

  • Gancho:
  • Incidente instigante:
  • Primeiro plot point:
  • Reação:
  • Midpoint:
  • Ação:
  • Terceiro plot point:
  • Clímax:
  • Resolução:

Depois de arranjar um (ou mais) evento(s) para cada um desses itens, fica muito, muito mais fácil plotar a história de fato.

Como mencionei no post anterior, eu já tinha dois desses eventos: o incidente instigante e o primeiro plot point. O incidente instigante seria o mensageiro chegando em Driatta para avisar do ataque da Serpente em Tiena e outros vilarejos vizinhos e o primeiro plot point seria Noelle deixando a cidade para ir atrás de Sephis. Mas e o gancho? Qual gancho seria interessante para Serpentkiller?

Meu processo para arranjar um gancho é mais ou menos simples: eu considero o maior conflito da história e depois penso em um modo como esse conflito poderia aparecer na primeira cena. Ou, melhor dizendo, indícios do conflito.

O maior conflito de Serpentkiller é obviamente o aparecimento da Serpente e seu confronto com Noelle. Mas como mostrar indícios desse conflito na primeira cena? Eu poderia colocar o incidente instigante na primeira cena, claro (vários livros fazem isso), mas se eu colocar no mensageiro assim tão no início não terei como mostrar a personalidade da Noelle, seu relacionamento com Lieth e o filho dos dois ou ainda como estabelecer um pouco do worldbuilding, já que não faria sentido para Noelle que ela ficasse zanzando por Driatta por várias cenas enquanto ela poderia já estar indo atrás de Sephis. Logo, eu precisava de algo que daria um indício, sim, mas que permitiria que Noelle continuasse em Driatta por mais tempo para que eu pudesse estabelecer todas as coisas a serem estabelecidas.

Foi aí que eu me lembrei dos rumores sobre Sephis. Que tal abrir o livro com esses rumores sendo discutidos? E se Noelle, Lieth e o filho dos dois estivessem passeando por aí e um daqueles caras que ficam pregando coisas no meio da rua acabasse falando com eles? Pensa comigo: talvez esse cara e Sephis fossem parte de um grupo (nada formal, apenas gente que acredita na mesma coisa) e o cara estivesse tentando convencer o maior número de attorias possível. Essa cena também poderia servir para estabelecer a personalidade de Noelle e suas crenças; ela poderia discutir e discordar do cara quando ele falar sobre serpentes sendo domadas e attorias e sournais convivendo em harmonia. Por que não?

Assim, já consigo os três primeiros itens da minha lista:

  • Gancho: Noelle confronta um dos pregadores de rua. Eles discutem – talvez ele até termine falando que as serpentes voltarão um dia, só pra colocar um pouco de foreshadowing.
  • Incidente instigante: o mensageiro chega com a aviso do ataque da Serpente. Estava pensando em colocar isso no meio de um festival, só para mostrar o impacto que a notícia teria na população.
  • Primeiro plot point: aqui as coisas ficaram um tiquinho mais complicadas. Eu já tinha o evento (Noelle partindo de Driatta), mas queria que houvesse um pouco mais de pressão para que ela fosse embora. Foi aí que pensei na rainha de Driatta – Zora. E se Zora tivesse proibido que os guerreiros/guardas da cidade deixassem Driatta? Ela não quer que eles morram por nada. Para ela, é melhor acolher o máximo de refugiados e esperar por Siana ou Methoras com os dragões. Logo, ela se oporia a Noelle indo embora – pelo menos oficialmente. A cena logo antes de Noelle deixando a cidade poderia ser entre as duas – uma conversa onde o encorajamento de Zora ficasse implícito, já que oficialmente ela não pode concordar que Noelle parta.

Arranjar a reação aqui é fácil: Noelle indo em busca de Sephis e incapaz de voltar para Driatta, já que ela seria punida por tê-la deixado em primeiro lugar.

Passamos então para o midpoint. Muitos escritores consideram o midpoint um dos elementos mais importantes da história – alguns inclusive acham melhor começar a planejar por ele. Eu não sou tão radical assim, mas como disse lá na minha série sobre estrutura, um midpoint bem feito é sim essencial para uma boa história. O midpoint muda o rumo da história e faz com que o protagonista perceba qual é a verdadeira origem do conflito.

Como já mencionei, o conflito de Serpentkiller é o confronto entre a Serpente e Noelle, mas não é necessariamente um confronto físico. Disse isso no último post, mas o que Noelle realmente quer saber é se a Serpente é maléfica apenas por ser Serpente, quais os motivos dela são, etc. Logo, no midpoint Noelle finalmente perceberia que ela não quer matar a Serpente – ou pelo menos ela não quer fazer isso antes de descobrir quem é a Serpente de verdade.

Logo, eu precisaria sim de um confronto físico, um em que Noelle pudesse matar a Serpente por pura sorte – mas hesitasse antes do golpe final, permitindo que a Serpente, agora machucasse, batesse em retirada para seu covil. Obviamente, esse confronto físico teria que fazer sentido e não ser um deus ex machina – então por que não colocá-lo no lugar onde as possíveis armas para domar serpentes estivesse? Talvez uma ruína? Arzanael é tomado por ruínas de uma raça há muito extinta – talvez essa raça pudesse domar serpentes e dragões, e Sephis soubesse disso. Noelle, Sephis e Mia poderiam ir para lá, e a Serpente as atacaria nessas ruínas. Mas um desmoronamento – talvez causado por Sephis? – a machucaria o bastante para que Noelle pudesse dar o golpe final. Com Noelle hesitando, a Serpente daria no pé.

Ao perceber que ela não conseguiu matar a Serpente, Noelle enfim compreenderia o que realmente quer dela, e isso daria origem a ação a seguir: ir até o covil da Serpente, em Tiena, seu vilarejo, para um ~confronto final~. No caminho, Sephis poderia ensiná-la a usar as armas que as duas acharam na ruína. Ou seja, mais itens para a lista:

  • Reação: ir atrás de Sephis graças aos rumores sobre serpentes sendo domáveis.
  • Midpoint: confronto com a Serpente em uma das ruínas espalhadas por Arzanael. Durante tal confronto, Noelle finalmente percebe que quer entender a Serpente, e não apenas matá-la.
  • Ação: partir para Tiena, onde o covil da Serpente está situado, e aprender a usar as armas com Sephis.

O próximo item da lista é o terceiro plot point. No terceiro plot point, o protagonista se lasca, como eu disse lá na série sobre estrutura. Vários autores chamam esse momento de noite escura, fundo do poço, enfim, coisas do tipo. É onde a missão do protagonista parece ter chegado ao fim do pior jeito possível: falhando.

Para Serpentkiller, que coisa melhor como terceiro plot point que Noelle falhando em domar a Serpente?

Ela conseguiria fazer tudo certo, claro, mas e se não funcionasse do mesmo jeito? E se a Serpente estivesse por demais furiosa e machucada para se submeter a ela? Isso revelaria um pouco mais sobre a própria Serpente também – ela não desiste, ela não será domada e ela muito provavelmente preferiria morrer a ter alguém mandando nela?

Isso faria Noelle chutar o balde de vez. O plano racional foi por água abaixo – hora de tentar o plano maluco mesmo: enfrentar a Serpente de cara, sem nenhum subterfúgio ou estratégia.

O que nos traz para o clímax, é claro. Para ele eu tive uma ideia do que poderia acontecer desde que comecei a pensar nessa história: e se a Serpente e Noelle caíssem no covil da Serpente? Serpentkiller começa com Noelle caindo no covil da Serpente (que provavelmente morará em uma espécie montanha oca), por que não terminar no mesmo lugar?

O último item é a resolução. Essa vai ser, acredito, a única parte da história narrada por outra pessoa – afinal de contas, Noelle e Serpente morrem no clímax do livro. Vai ser bem curta, mostrando apenas como os personagens restantes estão após a morte de ambas. Não sei ainda quem vai narrá-la: Lieth, Sephis ou Mia.

A lista está, portanto, completa:

  • Terceiro plot point: Noelle falha em domar a Serpente e decide enfrentá-la de qualquer modo.
  • Clímax: Noelle e a Serpente se enfrentam na montanha oca.
  • Resolução: retrato rápido dos personagens restantes após a morte de ambas.

Com isso eu tenho o esqueleto da história. É uma outline bem simples, mas que já funciona para eu saber como será o livro no final. Ainda irei expandi-la bem mais; há várias coisas que quero colocar na história, muitas das quais não sei exatamente onde entrarão (quero dizer, a partir de quando a Mia começa a acompanhar Noelle e Sephis?).

Mas isso é assunto para outro post, felizmente ^^

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