Diário de Escrita #06 – Contos… de novo

Então, faz exatamente sete dias desde o meu último diário de escrita. Nele eu mencionei que começaria a reescrita de um dos meus contos, Meio Lobo, Meio Corvo e bem… foi só hoje mesmo que eu consegui construir uma nova outline para ele. Por quê? Simples: tema.

Como já mencionei algumas vezes, eu sou muito ruim com contos. Meu cérebro é meio que programado para pensar em histórias longas e não em histórias curtas, e eu sou fã de construir personagens aos poucos, o que obviamente não pode ser feito em contos. A dica que as pessoas geralmente me dão sobre contos é que é melhor tentar capturar um momento e construir a história em volta desse momento, mas eu nunca consegui fazer isso direito.

Mas de um tempo pra cá acabei arranjando um jeito de “trapacear”, por assim dizer. Não foi algo consciente, mas hoje percebo que para tentar construir personagens/mundos de uma maneira que estou mais acostumado eu acabo organizando meus contos com cenas fora da ordem cronológica. Em A Menina Que Escutava a Escuridão, por exemplo, a primeira cena acontece no presente, mas todas até as duas últimas (são umas cinco ou seis no total, se me lembro bem) acontecem em momentos diferentes do passado da protagonista. Desse modo eu consigo mostrar momentos importantes da vida da personagem, momentos estes que a “moldaram”, além de também conseguir enfiar um pouco de worldbuilding na história.

Com outro conto meu (o primeiro que escrevi em inglês e que precisa de uma reescrita urgente), Monsters under the bed, fiz algo parecido: a história é sobre uma criança monstro que escapou de seu mundo (que estava morrendo) junto com centenas de outros monstros. A primeira cena é onde o outro protagonista, um garoto do nosso mundo, a encontra desacordada na praia logo depois do portal entre os dois mundos ser aberto. Mas a segunda já é bem diferente: é com os dois já mais velhos e com o nosso mundo já acostumado com a presença dos monstros, mas a partir dela cenas do presente – com os dois adolescentes – e do passado (continuando a partir da primeira cena) se intercalam até o fim da história. Esse foi o modo que encontrei para mostrar tanto quem são os personagens quanto qual o relacionamento entre os dois.

Em Meio Lobo, Meio Corvo, porém, eu não fiz nada disso, e na primeira versão (a que foi postada) talvez até não fosse necessário. Afinal de contas, isso de voltar ao passado para contar a história é uma técnica e não uma regra, e a história como eu a pensei lá no início não exigia nada disso. Problema sendo: a história como eu a pensei lá no início pode até ser legal, mas não é boa.

Algo que eu queria fazer com Meio Lobo, Meio Corvo era mostrar um paralelo entre Sian, Azra e Anarel e os deuses, Nevra, Vravil e Sylthras. No passado, Vravil assassinou Nevra, seu irmão gêmeo, em um ataque de raiva e ciúme. Ele imediatamente se arrependeu, mas era obviamente tarde demais. Durante Meio Lobo, Meio Corvo eu tentei deixar algumas pistas de que Anarel, irmã de Azra, meio que odeia Sian com todas as forças justamente por sentir ciúme. Logo, Azra seria Nevra, Anarel seria Vravil e Sian seria Sylthras, apesar dos relacionamentos serem um tanto diferentes; o de Nevra e Sylthras era romântico, mas o de Sian e Azra não é.

Em uma das últimas cenas do conto, Sian revive uma memória dele com Azra de modo alterado. Normalmente, ela seria apenas sobre o momento em que ele e Azra encontraram o corpo de Nevra, mas nessa versão alterada Azra é substituído pelo irmão morto de Sian e, depois, por um Azra diferente, com os olhos prateados de Nevra. O Azra-Nevra chama Sian de Syl, que é obviamente uma apelido para Sylthras, mas que lembra bastante o apelido que o verdadeiro Azra usa para Sian durante o conto: Sil.

Ou seja, eu fui tudo menos sutil nessa coisa de Azra-Sian-Anarel ser Nevra-Sylthras-Vravil, mas ainda assim foi algo que acabou meio enterrado na história, e eu acredito que isso tenha acontecido porque o momento importante da história (o que, eu acredito, poderia ser o momento que sempre mencionam nas dicas de como se escrever contos) ficou um tanto solto. Ele é, obviamente, o momento em que Sian escolhe receber o poder de Sylthras e se tornar imortal para continuar vivendo junto a Azra, o que deixa implícito (ou deveria, pelo menos) que a história provavelmente vai se repetir: Azra e Sian continuarão amigos muito próximos, Anarel ficará louca de ciúmes e puff, alguém – Azra – morrerá.

Mas apesar das semelhanças entre Azra-Sian-Anarel e Nevra-Sylthras-Vravil estarem óbvias pra mim, acho que ela acabou se perdendo para quem não sabe da história toda. No conto eu até fiz Azra mencionar que Sylthras foi a causa da briga entre Nevra e Vravil, mas não há menção ao relacionamento dos dois e ao que aconteceu depois da morte de Nevra. Ou, o que é pior, Sian não faz a menor ideia disso apesar de começar a perceber ao reviver sua memória alterada que há sim uma ligação entre eles e os deuses desaparecidos. A decisão dele teria bem mais peso se ele soubesse que sim, coisas ruins podem acontecer se ele continuar amigo de Azra, e ele escolhesse isso de qualquer modo (e é daqui que sai o tema da história).

Com isso em mente, pensei em usar minha técnica de cenas do passado intercaladas com cenas do futuro, mas ao invés de usar apenas Sian e Azra nelas – ou seja, usar as cenas para mostrar o relacionamento dos dois – decidi usar cenas bem curtas contando o que aconteceu com Nevra-Sylthras-Vravil. Minha ideia é usar essas cenas curtinhas (uns três parágrafos no máximo cada, acredito) para “espelhar” o que acontece no presente, nas cenas onde Sian, Azra e os outros partem para caçar o deus. Desse modo, a ligação entre todo mundo ficará um tanto mais clara e terá, espero, mais impacto.

Acabei planejando onze cenas para essa reescrita de Meio Lobo, Meio Corvo, onde cinco são cenas sobre Nevra-Sylthras-Vravil. Espero poder começar a escrever hoje mesmo e terminar antes do dia 30, já que novembro traz também o NaNoWriMo. Me desejem sorte!

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