estrutura #06 – o midpoint

Nessa sexta matéria sobre estrutura, falarei sobre o midpoint, ou seja, literalmente o “ponto do meio”. Em outras palavras, chegamos na metade do livro.

Antes de prosseguir:

O midpoint pode ser resumido em uma única frase: primeiro plot point 2.0. É por isso inclusive que muitos chamam o midpoint simplesmente de segundo plot point.

Assim como o primeiro plot point, o midpoint afeta o plot diretamente e muda tudo (de novo). Ele acontece geralmente por volta dos 50% da história (por isso é chamado de “ponto do meio,” claro) e é incrivelmente importante.

Sabe quando você está lendo um livro e depois do início até empolgante o meio se torna super chato? Parece que você está ali, lendo aquilo há zilênios, mas nada acontece? Ou, para ser sincero, coisas estão acontecendo, mas você não está achando nadinha interessante e os acontecimentos da história parecem estar mais se arrastando no estilo lesma do que acontecendo de fato? Uma grande chance de isso ter acontecido pela falta de um midpoint bem feito (ou de um midpoint, simples assim).

O midpoint é o que sopra um tanto mais de vida no meio da sua história. Lembra de como eu falei que o segundo ato é enorme? 50% do seu livro é só dele. Algo impactante tem que acontecer nele para que o leitor queira continuar lendo, mas muitas vezes os escritores apenas enchem o meio/segundo ato de obstáculos/coisas pros personagens resolver até chegar no fim e isso dá em merda. Tem muita chance de o resultado final não ser empolgante ou interessante para o leitor.

Então o que é o midpoint exatamente? Como disse lá em cima, o midpoint é muito parecido com o primeiro plot point, sendo então o segundo plot point. Com ele, as coisas mudam de novo. O foco da história muda. As reações que os personagens tiveram na primeira metade do segundo ato geralmente resultam nesse midpoint, mas não é estritamente obrigatório. O que é “obrigatório” é simples: o midpoint tem que fazer sentido. Não é algo que pode vir de canto nenhum apenas pra dar um choque no seu leitor e nos personagens.

Em O Senhor dos Anéis, o midpoint acontece em Valfenda. É quando Frodo decide levar o Anel para Mordor. Veja como isso muda a história completamente: até então o livro era apenas sobre Frodo e seus amigos levando o Anel até Valfenda para que os elfos o mantivessem seguro. Chegando lá, porém, Frodo percebe que o único modo de salvar todo mundo é destruindo-o, e então se oferece para fazê-lo. Isso também não só muda a história como revela muito da personalidade de Frodo.

Podemos dizer então que existe o O Senhor dos Anéis antes do momento em que Frodo se oferece para levar o Anel até Mordor e o O Senhor dos Anéis depois que isso acontece. O foco da história, o objetivo dos personagens, é completamente diferente. As coisas mudam. De novo.

E é aí que a outra mudança que o midpoint traz se apresenta: se os personagens apenas reagiam até agora, depois dele eles passam a agir. Frodo e a Sociedade do Anel estão agindo para destruir o Anel, e não apenas reagindo a um perigo exterior. É como se os personagens parassem de se defender e partissem para o ataque. O midpoint força o personagem a mudar seu modo de agir, por assim dizer.

Desse modo, o segundo ato fica sendo reação > ponto de mudança/midpoint > ação.

Apesar de ser um momento de grande importância, o midpoint não precisa ser extremamente dramático. Pode ser uma conversa, uma batalha, um assassinato, enfim, não importa, desde que ele faça duas coisas: mude tudo novamente e traga um novo sopro de vida para a história.

50% do livro já ficou pra trás…

E o que exatamente isso quer dizer? Simples: todos os problemas que você quer levantar e resolver nesse livro já devem ter sido levantados. Se seu livro é uma série e há problemas que só se resolvem no próximo volume, tudo bem levantá-los quando você quiser, mas se você tem um problema pra ser resolvido nesse, é bom levantá-lo antes de segunda metade do livro. Pense assim: primeira metade é apresentação de problemas, segunda metade é resolução de problemas.

Os personagens principais também já devem estar estabelecidos, assim como as relações entre eles (ou início de relações). Lembra que eu falei de desenvolvimento de personagem? Então. A primeira metade é onde você o apresenta de fato, por completo, com o primeiro ato sendo a apresentação mesmo e a primeira metade do segundo sendo o complemento + os indícios do início desse desenvolvimento. No resto do livro agora só resta desenvolvê-lo de fato; fazer seus defeitos trazerem consequências, questionar o que ele acredita ser certo ou errado, essas coisas. Fazer com que ele mude, como falei na matéria sobre personagens e riscos.

Bem, é isso. Na próxima matéria falarei sobre a segunda metade do segundo ato, onde os personagens passam a agir ao invés de reagir. Espero ter ajudado e qualquer coisa é só deixar um comentário.

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