personagens #02 – objetivos e motivações

Continuando a série sobre criação de personagens, hoje falarei um pouco sobre o que acredito ser uma das partes mais importantes de cada personagem: seus objetivos e motivações.

Antes de tudo, vamos definir as coisas: objetivo é algo concreto e claro. Exemplo: lembra do Príncipe do meu atual projeto? Na “conversa” que mostrei na primeira matéria, fica bem claro que já tenho uma ideia do que ele quer: encontrar a mãe dele. Isso é um objetivo, algo que lhe dá direção e que é simples, fácil de entender. Não tem erro. Já motivação é algo um tanto diferente; é a razão do objetivo existir. Ou seja, por que o Príncipe quer encontrar a mãe dele?

Já vi várias pessoas dizendo que toda motivação nasce do medo, e acredito que isso seja verdade. No caso do Príncipe, por exemplo, ele quer encontrar a mãe dele porque obviamente sente falta dela e quer saber o que aconteceu com ela. Mas por que ele sente falta dela?

Ué, Ren, você pode estar pensando. Ela era a mãe dele. Desde quando se precisa de razão para sentir falta da mãe? E bem, isso é verdade, mas as coisas nem sempre são tão simples assim. Veja bem, o que a mãe do Príncipe significava pra ele? Ela era a única pessoa, tirando seu irmão mais novo, que obviamente sabia de seu sangue élfico por compartilhá-lo, e foi ela quem lhe ensinou sobre um povo que era bem mais de boa com seu gênero e sexualidade, um povo com qual ele se identifica bem mais hoje em dia. Logo, ela não era apenas sua mãe; era praticamente um símbolo de aceitação. Lembra de como eu falei que motivação nasce do medo? Então. Talvez o maior medo do Príncipe seja não ser aceito ou ficar sozinho, e isso acabe sendo sua motivação.

Motivação, assim como o medo, faz com que você aja. Como o nome diz, é o que te motiva. O medo do Príncipe de ficar sozinho/não ser aceito, portanto, acaba sendo uma motivação para que ele aja, para que ele arranje um objetivo, que, nesse caso, acaba sendo encontrar a mãe dele (que, conscientemente ou não, ele acredita ser a solução para seus medos).

Veja como a motivação diz muito sobre um personagem: graças a ela eu já sei o que o Príncipe mais teme, e isso pode me ajudar bastante na construção de sua personalidade. Um medo de não ser aceito/ficar sozinho, por exemplo, influencia muito em como o personagem relaciona com outras pessoas; ficaria ele desconfiado delas, do tipo que não gosta muito de não se aproximar de ninguém pra não se decepcionar? Ou seria o contrário, e ele tentaria se aproximar de todo mundo o tempo inteiro?

No caso do Príncipe, eu já sei que a primeira hipótese é a mais provável, já que como vimos na outra matéria, eu defini que ele seria um personagem quieto. A segunda hipótese, portanto, entraria em choque com sua introversão, já que ela exigiria que ele fosse mais extrovertido e mais confortável com a ideia de sair falando com todo mundo.

É mais ou menos nessa etapa que meus personagens ganham nome, aliás; como já tenho um tanto mais sobre suas personalidades, fica mais fácil escolher um nome que combina (ou seja, é aqui que o Príncipe passa a se chamar Lori e a parecer com um personagem quase digno).

No caso do Lori, o objetivo dele + seu passado/backstory foi o que me deu sua motivação, mas o caminho inverso também é possível. Se você tem um personagem, mas não faz ideia do que ele deve fazer na história, tente pensar no que ele mais teme. Pode ser literalmente qualquer coisa: ficar sozinho/não ser aceito, ser inútil para família/sociedade, ser esquecido, morrer, falhar, ser comum, não ter poder, não ser forte o suficiente, não ter controle sob sua própria vida, enfim… Podem soltar a imaginação aqui, e assim que tiver decidido qual é a motivação, é só pensar num objetivo ligado ao plot (ou não, vai que né) que serve para “remediá-la”, por assim dizer.

Vale lembrar também que um personagem pode ter mais de um objetivo derivado de sua motivação. O principal do Lori é encontrar a mãe dele, mas há outro: saber o máximo possível sobre o povo de sua mãe. É algo menor, mas que também ajuda a caracterizá-lo.

OBJETIVO DO PERSONAGEM X O QUE ELE REALMENTE PRECISA

Pode parecer estranho, mas há uma grande diferença entre o objetivo de um personagem e o que ele realmente precisa. Ou seja, é aquela velha história: o que você quer nem sempre coincide com o que você precisa, e se você não se tocar disso pode acabar sendo tarde demais para corrigir a besteira depois.

Usando o Lori como exemplo novamente: alguém realmente acha que a vida dele vai se resolver se ele encontrar a mãe dele? Claro que não. Encontrar a mãe dele é algo que ele pensa que vai resolver tudo, mas olhando de fora fica claro que as coisas não são tão fáceis assim. A sociedade em que ele vive não vai passar a aceitá-lo do nada, e ele não vai passar a confiar nas pessoas da noite pro dia. Ele, portanto, não precisa encontrar a mãe dele, tecnicamente. É só algo que ele quer muito. O que ele precisa é deixar de desconfiar de deus e o mundo e sair de um ambiente tóxico, o que, claro, é mais fácil falar do que fazer.

E é aqui também que entra o desenvolvimento do personagem: uma boa forma de desenvolver o Lori é justamente atentando para o que ele precisa, ou seja, fazer com que esse aspecto da personalidade dele – extrema desconfiança – acabe perdendo a força e até sumindo durante o livro/série. Ou, se você quiser um desenvolvimento negativo, fazer o oposto: tornar sua desconfiança algo maior, com mais força, que no fim da história acaba transformando-o em um personagem extremamente sozinho e amargo. Depende do que você quiser fazer, mas falarei mais sobre desenvolvimento em outra matéria.

OBJETIVOS X RISCOS 

Quando você começa a trabalhar nos objetivos e motivações de seus personagens, você também está trabalhando no passado/backstory dele e em seu possível desenvolvimento. Essas coisas são meio impossíveis de se separar, e portanto é melhor nem fazê-los, e ir construindo tudo aos poucos, em conjunto.

A essa altura do campeonato, por exemplo, eu já tenho várias coisas sobre o Lys: ele era extremamente ligado a sua mãe e irmão, mas quando ela foi exilada e ele morto ele tinha apenas uns nove, dez anos, o que o fez passar seus anos mais formativos na presença de pessoas em que ele não confiava/que não gostavam dele ou o aceitavam (seu pai, basicamente). Isso o faz se tornar uma pessoa extremamente desconfiada que teme que seus segredos um dia sejam descobertos, e que por isso passa longe e até repele outros personagens que poderiam ser tornar seus amigos. O grosso da personalidade dele, portanto, eu já descobri, mas lembra como eu disse na série sobre estrutura que era preciso que houvessem riscos caso os personagens não alcançassem seus objetivos? Então.

Como eu disse lá, o personagem precisa que algo ruim esteja em risco de acontecer se ele não alcançar seu objetivo. É isso que ajuda a fazer os leitores se importarem; se você for habilidoso e escrever seu personagem direito, o mais provável é que os leitores não queiram que seu personagem se ferre, logo, a possibilidade de isso acontecer faz com que todo mundo grude os olhos na página. No caso do Lori, por muito tempo eu nem sequer me toquei disso. Pra mim, se ele não alcançasse o objetivo dele ele voltaria para a estaca zero, ou seja, ele estaria sozinho/não aceito por ninguém. Mas o problema é que esse é o status quo, por assim dizer, o ponto inicial. Lori já vem vivendo nesse “ponto inicial” há mais de dez anos (ele tem 21 quando a história começa), e por mais chato/horrível que seja, é algo a que ele já está meio acostumado. O risco tem que ser, bem, um risco. Algo pior tem que estar pairando sobre a cabeça dele.

Nessas horas é bom voltar para a razão da motivação do seu personagem existir. A do Lori, como eu já disse, é ficar medo de sozinho/não ser aceito, e só existe mesmo porque seu pai é um grande babaca. Então é uma boa ideia tirar o risco que ele corre de algo relacionado ao pai dele também (e à sua motivação/medo); Lori é seu único herdeiro, mas se ele não casar com a Princesa (e, portanto, falhar em seu objetivo de encontrar sua mãe), o pai dele decidiu que irá entregá-lo à coroa. Afinal de contas, Lori tem sangue de elfo, e nessa sociedade todo mundo que tem sangue de elfo é ou morto ou exilado, e ele meio que não vai poder ajudar a mãe dele se acabar tendo o mesmo destino que ela (plus, ele meio que gosta de sua liberdade, claro). Com isso, há um risco real e imediato que torna a coisa toda super urgente.

EM CONCLUSÃO…

Se você já tem o objetivo de seu personagem:

  • Arranje uma motivação que condiz com esse objetivo
  • Construa um passado/backstory em volta dessa motivação
  • Anote qualquer consequência dela que venha a sua mente nesse momento (ex: Lori como uma pessoa extremamente desconfiada é uma consequência de sua motivação).
  • Arranje um risco bem grande caso seu objetivo não seja alcançado.

Se você não tem nada:

  • Pense no que seu personagem mais teme e arranje um objetivo disso
  • Construa um passado/backstory em volta desse objetivo e dessa motivação recém descoberta
  • Anote qualquer consequência de ambos que venha a sua mente nesse momento
  • Arranje um risco bem grande caso o objetivo não seja alcançado.

Depois de ter tudo isso feito, é provável que seu personagem já pareça mais ou menos real para você e, sinceramente, acredito que essa é a parte mais importante para se definir a personalidade de um. Em seguida vem as coisas mais complementares e, claro, o desenvolvimento. Mas como eu já disse, isso é assunto para outra matéria.

Espero ter ajudado e qualquer coisa é só deixar um comentário!

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