nanoprep #06 – o terceiro ato

O terceiro ato sempre é o mais fácil para mim de planejar. Acredito, em parte, porque passo a maior parte do tempo tendo certeza que o ato 1 e o ato 2 funcionam, e o ato 3 é literalmente a consequência das coisas que aconteceram nos dois atos anteriores, então ele geralmente se resolve praticamente sozinho. Não foi diferente com Serpentkiller.

O segundo ato termina com Noelle falhando em domar as serpentes. É o terceiro plot point, o momento mais baixo para a personagem, onde tudo parece estar perdido. Logo após isso elas fogem, claro (tem uma serpente gigante querendo matá-las, afinal de contas), e reagrupam para conversar. Ou, melhor dizendo, para perguntar: e agora?

Como mencionei em posts anteriores, é muito, muito difícil matar uma serpente gigante ou um dragão. Praticamente impossível. É por isso que o plano inicial de Noelle era *domar* a Serpente, e não matá-la. Mas já que isso não funciona, a única coisa que lhe resta é tentar matá-la.

Sozinha, claro. Eu queria desde o início que o último confronto entre a Serpente e Noelle fosse somente entre elas duas, então as três (Sephis, Mia e Noelle) concordariam que tentariam novamente depois só para Noelle fugir sorrateiramente do acampamento para enfrentar a serpente sozinha. Como também já mencionei, eu quero que o final se dê no vilarejo de Tiena e no covil da Serpente (uma montanha oca) já que foi nesses dois lugares que a história começou.

Portanto, ao começar a planejar o terceiro ato eu já tinha praticamente tudo o que eu precisava:

  • Noelle, Mia e Sephis fogem da Serpente
  • Se reagrupam e decidem tentar novamente no próximo dia
  • Noelle, no entanto, sabe que a Serpente não irá aceitar ser domada e parte na calada da noite para derrotá-la sozinha
  • As duas se enfrentam e “caem” no covil da Serpente
  • A batalha dura até chegarem em Tiena

Meu plano inicial era que ambas morressem, mas ao planejar os atos anteriores eu percebi que Noelle não tinha uma decisão crítica para fazer como resultado do seu desenvolvimento. A Serpente morreria e ela morreria após finalmente entendê-la. Não há uma nada ativo sobre isso – Noelle entende e morre. Faltava alguma coisa.

Foi aí que eu lembrei da magia venenosa de Arzanael e de como os attorias e sournais tentam lidar com ela: dormindo.

Geralmente é tarde demais quando um attoria ou sournai percebe que usou magia demais e que ela agora vai devorá-lo por dentro, mas alguns conseguem notar a tempo e fazem do possível para impedir a morte iminente: eles dormem. Para sempre.

Claro que isso acontece mais porque esses attorias e sournais esperam, de alguma forma, que no futuro eles possam acordar para um mundo onde a magia não é mais venenosa. As chances são baixas – ninguém sabe direito porque diabos a magia é venenosa – mas é o que muitos preferem.

E se, ao invés de matar a Serpente, Noelle decidisse colocar ela no sono eterno? E se ela – Noelle – estivesse morrendo justamente por causa da magia venenosa, mas escolhesse salvar a Serpente ao invés de si própria?

Isso daria um final bem melhor do que as duas morrendo após Noelle deixar de ser uma pessoa hiper preconceituosa. Ainda tenho algumas dúvidas quanto a isso, mas acho que esse será sim o final da série.

Sendo assim, já dá para planejar o final:

  • Noelle usa magia demais e a Serpente é ferida
  • Noelle escolhe salvar a Serpente
  • Lieth, Mia e Sephis chegam antes de ela morrer (apenas para que ela diga NÃO MATEM A SERPENTE mesmo lol)
  • Noelle morre
  • Lieth, Mia ou Sephis (ainda não sei quem) narra o epílogo do livro, que provavelmente será o enterro de Noelle

E assim… fim! Dessa vez de verdade.

nanoprep #05 – segundo ato

Hoje eu finalmente terminei de planejar Serpentkiller, mas para o post de hoje irei falar apenas do que planejei para o segundo ato.

O segundo ato é extremamente importante para a história. Não que o primeiro e o terceiro não sejam, mas é no segundo onde o desenvolvimento dos personagens acontecem e, bem, onde a história acontece. Afinal de contas, o segundo ato é o maior de todos e toma literalmente metade da história.

Com Serpentkiller, a personagem que mais se desenvolve é, obviamente, a Noelle. Como mencionei em posts passados, o desenvolvimento da Noelle se foca nas crenças dela, ou seja, em como ela vai de Super Preconceituosa Contra Sournais/Serpentes/Avrazas para Pessoa Decente. Para mostrar esse desenvolvimento, portanto, eu tinha que fazer com que coisas na história desafiassem essa crença dela.

O primeiro passo para isso acontecer foi justamente estabelecer a crença no ato 1. No ato 2 é que o “desafiar as crenças dela” começa. Para isso, eu prefiro fazer desenvolvimento de personagem em cinco etapas:

  • Personagem acredita firmemente em algo e/ou age de certa forma (ato 1)
  • Personagem tem suas crenças/jeito de agir desafiados, mas recusa a ver a verdade (primeira metade do ato 2)
  • Personagem começa a perceber que sua crença/modo de agir está errado, mas ainda continuar acreditando/agindo da mesma forma (ou fingindo que está acreditando, pelo menos) (isso lá pro meio da história)
  • Personagem começa a pender para a verdade da parada aka sabe no fundo que está errado, mas ainda não aceitou isso completamente (segunda metade to ato 2)
  • Personagem finalmente aceita que estava errado, geralmente faz uma decisão importante para a história com base nisso (decisão crítica) (ato 3)

Portanto, eu precisava primeiro que algo desafiasse as crenças de Noelle já no início do segundo ato. Minha mente logo foi para Sephis, já que ela (e a Serpente) que vai causar as principais mudanças no modo de pensar de Noelle.

Com isso em mente, pensei em cenas em que Sephis mostrasse/desafiasse que Noelle está errada. Felizmente, isso podia ser facilmente incluído no plot, já que Noelle vai sim atrás de Sephis, mas ela não está 100% certa de que Sephis pode ajudá-la (ela pode, afinal de contas, ser uma charlatã). Ao pedir para que ela provasse que há sim como domar serpentes, Sephis poderia também mostrar que serpentes não são terríveis ou maléficas.

Como? Simples: memórias.

Um dos elementos que eu mais gosto de Arzanael é que memórias/almas/mentes são coisas mais…. físicas? Maleáveis? do que em nosso mundo. Exemplo: você pode armazenar memórias de outras pessoas em sua mente, você pode ver almas zanzando por aí e sua mente pode assumir forma física – obviamente não no mundo real, mas ela pode aparecer sim como se fosse real. E, geralmente, o estado da mente da pessoa diz muito sobre ela.

Assim sendo, Sephis poderia mostrar memórias para Noelle – memórias de uma época em que serpentes eram sim domadas, em que serpentes não eram consideradas seres terríveis. Aproveitando isso, ela também poderia mostrar como os dragões não são os santos que eles parecem ser.

Isso serviria para desenvolver o plot (Noelle estará convencida de que Sephis pode ajudar, logo ambas podem partir atrás da Serpente) e também para desenvolver a Noelle (ela veria que serpentes não são seres destruidores como sempre acreditou, apesar de não levar isso em consideração no momento/preferir não aceitar).

Depois disso, eu precisava de algo que a fizesse ver que talvez ela não esteja certa. Resolvi isso ao resolver outro problema que estava tendo: a falta de sournais.

Serpentkiller se passa anos e anos antes da guerra entre sournais e attorias que levaria à Fúria, e por isso os sournais não são uma ameaça agora e, de início, sequer apareceriam no livro. Mas sournais e attorias são raças minhas, criadas para essa série, e por isso seria bem estranho apresentar uma delas através de falas dos personagens (attorias falando de sournais) sem que ela não aparecesse em momento algum na história. Então… e se aparecessem? E se uma pequena família sournai tivesse movido para a área dos attorias e estivesse vivendo lá há anos, mas agora com o ataque da serpente precisasse se mover mais para dentro do território? E se Noelle os encontrasse por acaso?

Essa família sournai estaria lá justamente porque a área sournai do continente é BEM menos fértil do que a área attoriana. Como eu disse em uma ask recente, a principal causa das guerras entre attorias e sournais é território, justamente porque sournais passam por umas dificuldades do diabo onde moram. A família proporcionaria uma oportunidade para Noelle sair da caixinha Todos Os Sournais São Horríveis e a faria começar a ver que ela está sim errada.

A última etapa do desenvolvimento aqui no segundo ato é a personagem começar a pender mais pra lá do que pra cá, ou seja, ver mesmo que estava errada apesar de ainda não admitir isso em voz alta. Pensei no midpoint ter proporcionado o início disso (ela perceberia que não quer matar a Serpente, e junto com o que lhe foi mostrado por Sephis e com o encontro com a família sournai, ela ter passado para essa etapa. Mas para isso realmente acontecer eu pensei em outra coisa: a Rainha Serpente.

Como comentei brevemente no último post, a Rainha Serpente é a protagonista de um conto que já escrevi. Ele foi aceito pela Contracapa no ano passado, mas a revista se escafedeu e eu pensei em tentar uma última vez antes de postá-lo no Wattpad/Widbook e o mandei para a Trasgo. Sendo bem sincero, não acho que vai ser aceito, mas prefiro esperar até ter certeza.

Enfim, a Rainha Serpente é meio que uma figura lendária para attorias. Diz a lenda que ela era uma attoria avraza que desapareceu durante uma tempestade de sombras após anos dizendo que conseguia escutar as serpentes a chamando. Desde então, ela vagaria pela área attoria do continente na forma de uma grande serpente de sombras, esperando pelo dia em que suas irmãs – as serpentes – seriam libertas de sua prisão.

Desde que comecei a planejar Serpentkiller que eu vinha tentando arranjar um modo de enfiar a Rainha Serpente na história, mas foi só hoje ao parar para planejar o ato 2 que eu percebi que ela poderia ser uma ferramenta essencial para o desenvolvimento de Noelle – ela seria a pessoa que a empurraria de vez para “ok, sei que estou errada, mas é difícil admitir isso”.

Com esses três novos elementos, minha lista de acontecimentos para o segundo ato fica um pouco maior:

  • Noelle deixa Driatta (fim do primeiro ato/primeiro plot point)
  • Noelle se encontra com Sephis + Sephis mostra as memórias para ela
  • Noelle encontra a família sournai
  • Noelle, Sephis e Mia enfrentam a serpente nas ruínas onde as armas para domar serpentes estão (midpoint – meio do segundo ato)
  • Noelle decide ir com Mia e Sephis até onde a Rainha Serpente está.
  • Noelle enfrenta a Serpente, mas não consegue domá-la (fim do segundo ato/terceiro plot point)

Agora só era preciso preencher o resto. Para isso, listei as coisas que faltavam e como poderia introduzi-las na história:

  • Noelle logo depois de sair de Driatta (provavelmente em um esconderijo)
  • A introdução de Mia (pensei em Mia estar esperando do lado de fora de Driatta pelo grupo enviado por Zora para destruir a Serpente, exceto que esse grupo nunca vem – ou seja, só a Noelle aparece e ela meio que decide segui-la)
  • As três viajando em direção às ruínas
  • Visita a um vilarejo destruído pela Serpente, mais para mostrar do que ela é capaz mesmo
  • Momentos em que as três apenas conversam para desenvolver mais o relacionamento entre elas (pensei em algo mais descontraído – em um lugar mais bonito da floresta/um lago, talvez?)
  • Treino com as armas encontradas nas ruínas
  • Chegada em Tiena

Depois disso, foi só fazer a lista completa de coisas que acontecem no segundo ato:

  • Noelle em seu esconderijo após sair de Driatta
  • Noelle notando que alguém a está seguindo (Mia)
  • Chegada na morada de Sephis/encontro com Sephis
  • Sephis mostra as memórias para ela
  • Sephis decide ir com ela para as ruínas
  • As duas descobrem Mia e Mia se recusa a ir embora, então Sephis e Noelle aceitam que ela vá com elas atrás da Serpente
  • Jornada até as ruínas, passando por uma das grandes pontes*
  • Encontro com a família sournai no meio da ponte
  • Chegada nas ruínas + elas encontram as armas
  • A Serpente ataca, mas é ferida (por um desabamento talvez?). Noelle a poupa (midpoint)
  • Noelle é confrontada por Mia por não ter matado a Serpente
  • Noelle finalmente confessa que foi ela quem a poupou anos atrás
  • Sephis guia as duas até onde a Rainha Serpente pode ser encontrada
  • A Rainha Serpente mostra o chamado das serpentes, que ela escuta sempre
  • Elas deixam a Rainha Serpente e passam por um vilarejo destruído (o de Mia, talvez?)
  • Passam um tempo descansando em uma área próxima ao vilarejo
  • Chegam em Tiena e buscam pela Serpente
  • As três enfrentam a Serpente, mas não conseguem domá-la (terceiro plot point/fim do segundo ato)

E… fim! Segundo ato praticamente planejado. Claro que falta algumas coisas (tenho que ver como irei desenvolver Mia e Sephis, por exemplo), mas o grosso da história finalmente está aí, o que resta apenas, claro, o terceiro ato.

*Arzanael é dividido por “placas” aka territórios ou muito quentes ou muito frios. A explicação aceita por literalmente todo mundo (e que é verdade) é que como o mundo surgiu literalmente em volta do deus-dragão e da deusa-serpente, as áreas quentes = corpo do dragão e as áreas frias = corpo da serpente. As grandes pontes são o que ligam uma placa a outra.

nanoprep #04 – o primeiro ato

Terça eu tirei a manhã/dia para descobrir como seria o primeiro ato de Serpentkiller. Para os que não sabem, eu sigo a estrutura dos três atos nas minhas histórias.

Comecei listando as coisas que eu precisava fazer nesse primeiro ato:

  • Estabelecer os personagens (principalmente Noelle e Lieth);
  • Estabelecer o mundo/cultura dos attorias;
  • Estabelecer o que Noelle tem a perder caso ela falhe;
  • Mostrar como a vida de Noelle é normalmente;

Começando com os personagens, quais as coisas sobre Noelle que eu preciso mostrar para o leitor no primeiro ato? Suas crenças, claro, e suas características mais importantes, assim como habilidades necessárias para o desfecho da história.

A principal crença de Noelle é que todas as criaturas associadas às sombras (sournais, avrazas, serpentes) são maléficas. Suas principais características são que ela controla muito bem suas emoções/é séria, mas afetuosa com as pessoas próximas, orgulhosa e extremamente independente, além de uma guerreira excelente. Sabendo disso, fica mais fácil pensar em cenas onde posso mostrar a Noelle direito, exibindo cada um desses traços.

Para mostrar sua crença, usarei o gancho do último post: a cena onde ela confronta o cara falando sobre as serpentes e os sournais. Ou seja, essa cena servirá tanto para mostrar os indícios do conflito principal quanto a personalidade da protagonista.

Para mostrar as habilidades dela como guerreira, pensei em uma luta de brincadeira/treino com Seros, um amigo tanto dela quanto de Lieth que também seria um membro da guarda de Driatta. Essa é uma das primeiras cenas que me vieram, não exatamente por causa da luta com Seros, mas porque Enzio, o filho de Noelle e Lieth, entra na brincadeira também. Eu queria que isso mostrasse que Enzio é muito mais como Noelle do que como Lieth (ou seja, um guerreiro), já que é isso que eventualmente também leva a sua morte.

Sua seriedade/capacidade de controlar emoções foi um tanto mais difícil de mostrar justamente porque eu teria que mostrar isso o tempo todo. Ainda assim, eu queria uma cena que marcasse para o leitor o quão no controle Noelle sempre é e depois de bater com a cabeça contra a parede por alguns instantes me veio a ideia de fazer alguém provocá-la. Mas provocá-la com o quê?

Foi aí que eu me lembrei do passado dela. Lembra que eu disse que Noelle havia deixado seu vilarejo “por algum motivo”? Eu não tinha pensado direito em qual motivo seria esse, mas e se ela tivesse ido para Driatta justamente por causa do estigma que sua família ganhou após ser revelado que sua irmã era uma avraza? E se algumas pessoas em Driatta soubessem disso? E se alguém – alguém que não gosta de Noelle – resolvesse provocá-la sobre isso?

Ela manteria a calma durante toda a conversa, mas através da narrativa eu mostraria o leitor que na verdade ela está furiosa.

Duas características marcantes (orgulho e afetuosidade) eu escolhi mostrar apenas através de interações entre ela e a família/amigos, e sua cisma em ser independência vai aparecer em resposta a uma das características de Lieth.

Lieth é uma pessoa bem diferente de Noelle. Ele é mais aberto e amigável, por exemplo, o que eu escolhi mostrar em suas interações com Noelle, Enzio, Seros e Anya (outra amiga de ambos) ao invés de em uma cena específica. Lieth é, sem mais nem menos, uma pessoa manipuladora, mas ele é um manipulador benevolente, ou seja, ele não manipula as pessoas para seu próprio bem. Ele passa os sete livros de CF manipulando deus e o mundo para que seu reino sobreviva à guerra/fim do mundo, por exemplo, e apesar de ele não sair machucando ninguém as pessoas só descobrem que fizeram parte de seus esquemas bem depois de eles já terem acontecido.

(Lembra do meu post sobre conflito entre personagens? Lieth é o cara que coloca o Fulano no trono).

Lieth também é, como já mencionado, um escolar. Ele gosta de ler e de estudar sobre vários assuntos. Ele não gosta nem um pouco de se meter nas picuinhas dos Maedrions e como ele é relativamente novo (300 anos, mais ou menos), os Maedrions o deixam em paz pela maior parte do tempo – logo, sua vida é dedicada à família e aos seus estudos apenas.

A cisma de independência de Noelle aparece junto à tendência manipuladora de Lieth. Não que ele tenta manipulá-la (ele não sobreviveria a isso, acredito), mas sim porque ele manipula a pessoa que provocou Noelle na outra cena. Tive a ideia de que ele vem tentando fazer com que essa pessoa (que também é da guarda) seja transferida para outro posto há meses e que agora finalmente conseguiu, isso tudo, claro, para que Noelle pudesse ter um pouco de paz. De início Noelle não ficaria muito feliz com isso – ela é do tipo de pessoa que tem que fazer tudo sozinha sempre – mas eventualmente entenderia porque ele fez isso.

Sua indiferença em relação aos Maedrions eu escolhi mostrar nas cenas do festival que mencionei no último post. Ele sempre escolhe ficar longe da rainha, Zora, e de seus parentes, preferindo ficar com seus amigos/o povão mesmo. Já seu amor por livros/por estudar eu escolhi mostrar na cena onde Noelle treina com Seros – ele está lendo enquanto os dois treinam e prefere ficar bem longe da arena.

Ao definir o que preciso mostrar dos dois personagens fica mais fácil planejar as coisas que acontecem no primeiro ato. Só com o que tenho aqui já dá pra ver como a primeira parte do livro irá ficar:

  • Noelle ainda criança no covil da Serpente (prólogo)
  • Noelle e Seros treinando + Enzio
  • Noelle e o cara debatendo (ainda não sei qual dessas duas cenas virá primeiro).
  • Noelle & cia na estátua do dragão (para mostrar a religião dos attorias aka um pouco de worldbuilding)
  • Noelle sendo provocada (logo após deixar a estátua, provavelmente)
  • Noelle e Lieth conversando antes do festival (quando Lieth conta para ela sobre a pessoa lá sendo transferida de posto + um pouco de conversa sobre outras coisas para mostrar o relacionamento dos dois)
  • O festival + apresentação de Zora como rainha (para evidenciar o afastamento de Lieth dos Maedrions + introduzir a personalidade de Zora)
  • Chegada do mensageiro
  • Noelle falando com Lieth sobre a Serpente (provavelmente contando que foi ela quem a deixou viva?)
  • Refugiados chegam em Driatta
  • Reunião com Zora + proibição de deixar a cidade
  • Noelle se despedindo de Lieth e dos outros
  • Noelle deixa Driatta <- primeiro plot point

Ainda há coisas que eu quero inserir nisso, como: mais sobre as serpentes e os dragões, para explicar porque uma serpente aparecendo é um Big Deal; mais hints do que aconteceu com a irmã de Noelle, mas não toda a verdade para ver se consigo deixar os leitores curiosos; a lenda da Rainha Serpente*; um tremor e uma explicação rápida sobre o que são as tempestades de sombra.

E assim… puff, primeiro ato tecnicamente planejado. Só irei planejar as cenas quando eu for escrever de verdade, já que eu preciso “sentir” o ritmo da história para tomar algumas decisões.

Amanhã, portanto, partirei para o segundo ato ^^

*eu tenho um conto sobre a Rainha Serpente que talvez eu poste em breve!

nanoprep #03 – plot e estrutura

Vocês já devem ter percebido que eu sou fã de estrutura. Desde que comecei a estudar mais sobre o assunto ano passado que venho percebendo as melhoras nos meus personagens, plots, e histórias no geral, e hoje posso dizer que não largo estrutura por nada nessa vida. Com ela eu consigo arranjar um plot para uma história em menos de uma hora.

E foi exatamente isso que fiz hoje com Serpentkiller.

Ao sentar hoje para “descobrir” o plot completo da história, portanto, eu escolhi preencher uma simples lista antes:

(Para saber mais sobre a estrutura que eu uso, clique aqui).

  • Gancho:
  • Incidente instigante:
  • Primeiro plot point:
  • Reação:
  • Midpoint:
  • Ação:
  • Terceiro plot point:
  • Clímax:
  • Resolução:

Depois de arranjar um (ou mais) evento(s) para cada um desses itens, fica muito, muito mais fácil plotar a história de fato.

Como mencionei no post anterior, eu já tinha dois desses eventos: o incidente instigante e o primeiro plot point. O incidente instigante seria o mensageiro chegando em Driatta para avisar do ataque da Serpente em Tiena e outros vilarejos vizinhos e o primeiro plot point seria Noelle deixando a cidade para ir atrás de Sephis. Mas e o gancho? Qual gancho seria interessante para Serpentkiller?

Meu processo para arranjar um gancho é mais ou menos simples: eu considero o maior conflito da história e depois penso em um modo como esse conflito poderia aparecer na primeira cena. Ou, melhor dizendo, indícios do conflito.

O maior conflito de Serpentkiller é obviamente o aparecimento da Serpente e seu confronto com Noelle. Mas como mostrar indícios desse conflito na primeira cena? Eu poderia colocar o incidente instigante na primeira cena, claro (vários livros fazem isso), mas se eu colocar no mensageiro assim tão no início não terei como mostrar a personalidade da Noelle, seu relacionamento com Lieth e o filho dos dois ou ainda como estabelecer um pouco do worldbuilding, já que não faria sentido para Noelle que ela ficasse zanzando por Driatta por várias cenas enquanto ela poderia já estar indo atrás de Sephis. Logo, eu precisava de algo que daria um indício, sim, mas que permitiria que Noelle continuasse em Driatta por mais tempo para que eu pudesse estabelecer todas as coisas a serem estabelecidas.

Foi aí que eu me lembrei dos rumores sobre Sephis. Que tal abrir o livro com esses rumores sendo discutidos? E se Noelle, Lieth e o filho dos dois estivessem passeando por aí e um daqueles caras que ficam pregando coisas no meio da rua acabasse falando com eles? Pensa comigo: talvez esse cara e Sephis fossem parte de um grupo (nada formal, apenas gente que acredita na mesma coisa) e o cara estivesse tentando convencer o maior número de attorias possível. Essa cena também poderia servir para estabelecer a personalidade de Noelle e suas crenças; ela poderia discutir e discordar do cara quando ele falar sobre serpentes sendo domadas e attorias e sournais convivendo em harmonia. Por que não?

Assim, já consigo os três primeiros itens da minha lista:

  • Gancho: Noelle confronta um dos pregadores de rua. Eles discutem – talvez ele até termine falando que as serpentes voltarão um dia, só pra colocar um pouco de foreshadowing.
  • Incidente instigante: o mensageiro chega com a aviso do ataque da Serpente. Estava pensando em colocar isso no meio de um festival, só para mostrar o impacto que a notícia teria na população.
  • Primeiro plot point: aqui as coisas ficaram um tiquinho mais complicadas. Eu já tinha o evento (Noelle partindo de Driatta), mas queria que houvesse um pouco mais de pressão para que ela fosse embora. Foi aí que pensei na rainha de Driatta – Zora. E se Zora tivesse proibido que os guerreiros/guardas da cidade deixassem Driatta? Ela não quer que eles morram por nada. Para ela, é melhor acolher o máximo de refugiados e esperar por Siana ou Methoras com os dragões. Logo, ela se oporia a Noelle indo embora – pelo menos oficialmente. A cena logo antes de Noelle deixando a cidade poderia ser entre as duas – uma conversa onde o encorajamento de Zora ficasse implícito, já que oficialmente ela não pode concordar que Noelle parta.

Arranjar a reação aqui é fácil: Noelle indo em busca de Sephis e incapaz de voltar para Driatta, já que ela seria punida por tê-la deixado em primeiro lugar.

Passamos então para o midpoint. Muitos escritores consideram o midpoint um dos elementos mais importantes da história – alguns inclusive acham melhor começar a planejar por ele. Eu não sou tão radical assim, mas como disse lá na minha série sobre estrutura, um midpoint bem feito é sim essencial para uma boa história. O midpoint muda o rumo da história e faz com que o protagonista perceba qual é a verdadeira origem do conflito.

Como já mencionei, o conflito de Serpentkiller é o confronto entre a Serpente e Noelle, mas não é necessariamente um confronto físico. Disse isso no último post, mas o que Noelle realmente quer saber é se a Serpente é maléfica apenas por ser Serpente, quais os motivos dela são, etc. Logo, no midpoint Noelle finalmente perceberia que ela não quer matar a Serpente – ou pelo menos ela não quer fazer isso antes de descobrir quem é a Serpente de verdade.

Logo, eu precisaria sim de um confronto físico, um em que Noelle pudesse matar a Serpente por pura sorte – mas hesitasse antes do golpe final, permitindo que a Serpente, agora machucasse, batesse em retirada para seu covil. Obviamente, esse confronto físico teria que fazer sentido e não ser um deus ex machina – então por que não colocá-lo no lugar onde as possíveis armas para domar serpentes estivesse? Talvez uma ruína? Arzanael é tomado por ruínas de uma raça há muito extinta – talvez essa raça pudesse domar serpentes e dragões, e Sephis soubesse disso. Noelle, Sephis e Mia poderiam ir para lá, e a Serpente as atacaria nessas ruínas. Mas um desmoronamento – talvez causado por Sephis? – a machucaria o bastante para que Noelle pudesse dar o golpe final. Com Noelle hesitando, a Serpente daria no pé.

Ao perceber que ela não conseguiu matar a Serpente, Noelle enfim compreenderia o que realmente quer dela, e isso daria origem a ação a seguir: ir até o covil da Serpente, em Tiena, seu vilarejo, para um ~confronto final~. No caminho, Sephis poderia ensiná-la a usar as armas que as duas acharam na ruína. Ou seja, mais itens para a lista:

  • Reação: ir atrás de Sephis graças aos rumores sobre serpentes sendo domáveis.
  • Midpoint: confronto com a Serpente em uma das ruínas espalhadas por Arzanael. Durante tal confronto, Noelle finalmente percebe que quer entender a Serpente, e não apenas matá-la.
  • Ação: partir para Tiena, onde o covil da Serpente está situado, e aprender a usar as armas com Sephis.

O próximo item da lista é o terceiro plot point. No terceiro plot point, o protagonista se lasca, como eu disse lá na série sobre estrutura. Vários autores chamam esse momento de noite escura, fundo do poço, enfim, coisas do tipo. É onde a missão do protagonista parece ter chegado ao fim do pior jeito possível: falhando.

Para Serpentkiller, que coisa melhor como terceiro plot point que Noelle falhando em domar a Serpente?

Ela conseguiria fazer tudo certo, claro, mas e se não funcionasse do mesmo jeito? E se a Serpente estivesse por demais furiosa e machucada para se submeter a ela? Isso revelaria um pouco mais sobre a própria Serpente também – ela não desiste, ela não será domada e ela muito provavelmente preferiria morrer a ter alguém mandando nela?

Isso faria Noelle chutar o balde de vez. O plano racional foi por água abaixo – hora de tentar o plano maluco mesmo: enfrentar a Serpente de cara, sem nenhum subterfúgio ou estratégia.

O que nos traz para o clímax, é claro. Para ele eu tive uma ideia do que poderia acontecer desde que comecei a pensar nessa história: e se a Serpente e Noelle caíssem no covil da Serpente? Serpentkiller começa com Noelle caindo no covil da Serpente (que provavelmente morará em uma espécie montanha oca), por que não terminar no mesmo lugar?

O último item é a resolução. Essa vai ser, acredito, a única parte da história narrada por outra pessoa – afinal de contas, Noelle e Serpente morrem no clímax do livro. Vai ser bem curta, mostrando apenas como os personagens restantes estão após a morte de ambas. Não sei ainda quem vai narrá-la: Lieth, Sephis ou Mia.

A lista está, portanto, completa:

  • Terceiro plot point: Noelle falha em domar a Serpente e decide enfrentá-la de qualquer modo.
  • Clímax: Noelle e a Serpente se enfrentam na montanha oca.
  • Resolução: retrato rápido dos personagens restantes após a morte de ambas.

Com isso eu tenho o esqueleto da história. É uma outline bem simples, mas que já funciona para eu saber como será o livro no final. Ainda irei expandi-la bem mais; há várias coisas que quero colocar na história, muitas das quais não sei exatamente onde entrarão (quero dizer, a partir de quando a Mia começa a acompanhar Noelle e Sephis?).

Mas isso é assunto para outro post, felizmente ^^

nanoprep #02 – os personagens e o plot

Os personagens de Serpentkiller me vieram de um jeito bem bizarro. Como mencionei lá nas matérias sobre construção de personagens, geralmente escolho quais personagens vou criar ao ver como eles se relacionariam entre si para criar as dinâmicas mais legais. Para Serpentkiller, porém, a coisa foi um tico diferente.

Sabe a Guerra de Canudos? É uma história que eu ouço muito porque minha mãe é de uma cidade perto de onde Canudos (então Belo Monte) ficava, então os parentes todos conhecem e contam. Enfim, sempre que me contam a história ela termina com quatro pessoas de Canudos como as últimas defensoras do arraial diante do Exército Brasileiro, isso após quatro expedições que visavam destruir o lugar (houve outros sobreviventes, mas esses quatro eram do “exército” da cidade). Essas quatro pessoas seriam um velho, dois homens adultos e uma criança/adolescente, estando, claro, contra um exército de 5 mil.

(Que as assassinou assim mesmo, vale frisar.)

Há algum tempo atrás eu estava pensando em como diabos iria arranjar os personagens de Serpentkiller porque não conseguia me decidir entre as opções que eu tinha no momento quando meu avô começou a contar a história da Guerra de Canudos novamente. Meu avô é um contador de histórias MUITO bom (já devo ter falado aqui que foi ele que me influenciou a ler e escrever, aliás), então mesmo já tendo ouvido aquela história pelo menos mil vezes (perks of being baiano), eu me vi total concentrado no que ele falava, principalmente na última imagem: quatro pessoas sozinhas contra um exército enorme com o arraial completamente destruído em volta delas.

Ao final do conto, eu me perguntava duas coisas:

1. Por que diabos ninguém usa a Guerra de Canudos como inspiração para livros de fantasia?

2. Por que eu não faço isso?

PERSONAGENS

Obviamente uma guerra onde o governo manda quatro expedições estupidamente armadas contra um arraial do tamanho de um ovo não é algo que cabe em Serpentkiller, mas a ideia geral daquela imagem final poderia sim ser utilizada.

Quero dizer, e se o inimigo impossível de se vencer não fosse um exército, mas sim um monstro? E se essas quatro pessoas não fossem as últimas defensoras, mas as únicas dispostas a tentar impedir que o monstro continuasse a espalhar caos e violência? Os elementos permaneceriam os mesmos: o inimigo muito maior e invencível, as quatro pessoas se colocando entre esse inimigo e o resto seu povo, o vilarejo destruído pela fúria desse inimigo, etc, etc, etc. Por que não?

(Eu ainda pretendo escrever uma história mais inspirada em Canudos, btw, mas não é algo certo).

Depois de pensar um pouco, decidi diminuir de quatro para três pessoas: um velho, um homem e uma criança. Ou melhor dizendo, uma velha, uma mulher e uma criança.

A mulher obviamente seria Noelle, que partira sozinha de Driatta para derrotar a Serpente em Tiena, seu antigo vilarejo, mas e a criança e a velha? Quem seriam elas?

A criança foi fácil de se resolver: ela seria uma garota trans de 13 anos de um vilarejo também destruído pela Serpente. Essa garota, que escolhi nomear Mia, estaria 100% determinada a se vingar do que aconteceu com sua família e casa, e encontraria Noelle por acaso em sua perseguição à Serpente.

A velha foi um tanto mais difícil. Minha primeira ideia foi fazê-la uma sobrevivente de Tiena e uma espécie de “tutora” ou líder do lugar, mas isso não foi pra frente. Não foi nem por ser um problema da personagem, mas lembra quando eu comentei que desenvolvo personagem e plot juntos? Então.

PLOT

A grande questão da história: se a Serpente é um inimigo assim tão formidável, como diabos Noelle irá vencê-la?

Como mencionei nos posts anteriores, há cavaleiros de dragão em Arzanael, mas em Serpentkiller só existem dois cavaleiros de dragão que são attorias: Siana Saedra e seu dragão Agon (para os anciões da SW/leitores de ODS, Siana seria a antepassada de Eoan, e Agon seria o dragão de Davendria), e Methoras Syzorah (novamente para os leitores de ODS, Methoras é o antepassado de Luhiel) e seu dragão Sethrien. Eles não estão na região em Serpentkiller, então são apenas mencionados por personagens que sugerem chamá-los para lidar com a Serpente. Problema sendo, claro, que o processo de descobrir onde Siana e Methoras estão, ir até eles e eles finalmente virem para Driatta, Tiena e etc, demoraria semanas, semanas nas quais a Serpente continuaria a destruir tudo que vê pela frente. Os únicos outros cavaleiros de dragão conhecidos seriam os sournais, e obviamente que attorias jamais pediriam ajuda para sournais.

É por isso que Noelle decide derrotar a Serpente ela mesma, mas isso ignora o fato de nenhum attoria ou sournai jamais conseguiu matar um dragão ou uma serpente. Domar um dragão? Sim, claro. É algo difícil e muita gente morre tentando, mas matar um dragão ou serpente? Impossível. Noelle sabe disso, então por que diabos ela se lançaria em uma missão suicida que não traria frutos? Veja bem, Noelle com certeza se sacrificaria se isso significasse a morte da Serpente e a segurança de seu povo, mas ela não é estúpida. Se ela vai se sacrificar, ela tem que ter uma chance de fazer esse sacrifício valer a pena antes. Ou seja, ela precisa de uma chance real de matar a Serpente.

Foi aí que me veio a ideia: e se fosse possível domar serpentes?

Sabe aqueles momentos onde tudo passa a fazer sentido? Eu depois que essa ideia surgiu na minha mente.


Me surgiram várias ideias em consequência dessa:

1. Noelle já teria ouvido rumores sobre isso, e ela ouvindo/sabendo desses rumores deve acontecer em alguma cena do primeiro ato.

2. Após o mensageiro chegar em Driatta trazendo notícias do ataque da serpente (seria esse o incidente instigante?), Noelle se lembraria desses boatos.

3. Noelle teria que saber onde ir e com quem falar para saber se esse rumor é verdadeiro. O primeiro plot point da história poderia ser justamente ela deixando Driatta para trás para ir falar com essa pessoa.

Mas quem essa pessoa seria? Eu não queria criar outro personagem já que essa história é um volume único e eu não quero que esse volume único seja gigante (menos páginas = menos espaço para estabelecer e desenvolver personagens).

Foi aí que puf, me veio a ideia de fazer a velha ser essa pessoa. Com isso, várias outras ideias foram se acumulando (umas eu não posso falar, porque daria spoiler para CF), mas no fim das contas eu terminei decidindo que essa velha, chamada Sephis, seria uma espécie de figura folclórica dos attorias. Ela viveria sozinha, isolada, e para a população no geral seria meio que uma maluca, mas na verdade ela tem várias razões para se manter longe de todo mundo. E, claro, ela seria a pessoa supostamente responsável pelos rumores.

PERSONAGENS E PLOT

Ao sentar hoje para decidir a personalidade dos personagens, assim como seus arcos de desenvolvimento, consegui arranjar várias ideias para o plot também.

A primeira veio da própria Sephis. Fiz com que ela não acreditasse muito em attorias e sournais e preferisse viver isolada justamente por condenar o comportamento das duas raças (o porquê de ela achar isso é o tal spoiler pra CF). Assim, quando Noelle vai até ela Sephis não quer nem saber de ajudá-la (já que ela vai ter que deixar sua adorada casa pra trás para fazer isso). Ela acaba indo, claro, e isso abre a oportunidade para seu próprio desenvolvimento como personagem, já que no final do livro ela decide ir morar em Driatta entre os attorias, deixando seus dias de ermita para trás.

A segunda veio da Noelle. A princípio eu tive bastante dificuldade com seu desenvolvimento. Eu sabia, claro, que lá para o final do livro suas opiniões sobre serpentes, sournais, etc, mudariam quase que por completo. Serpentkiller é basicamente sobre o relacionamento entre a Serpente e Noelle e o que isso significa para ambas aka como isso faz com que Noelle reconsidere várias certezas que ela tem. O problema é que embora eu soubesse que Noelle deixaria de acreditar que Todas As Serpentes e Sournais São Horríveis, eu não tinha pensado em estabelecer isso com toda certeza no início. Ou seja, eu teria que começar a história com Noelle afirmando isso veementemente para maior impacto no final da história.

Foi aí que eu tive a ideia de dar uma irmã para a Noelle. Uma irmã avraza.

Como mencionei nos outros posts, attorias e dragões são criaturas das chamas enquanto sournais e serpentes são das sombras. Isso significa que a magia que eles podem usar é literalmente tirada das chamas e sombras no centro do mundo. Attorias só usam, portanto, magia da chama, e sournais usam apenas a magia da sombra. É como eles funcionam.

Mas existem os attorias que usam magia da sombra e os sournais que usam magia da chama. Vale frisar aqui que isso não é uma escolha. É uma afinidade. Esses attorias e sournais simplesmente não conseguem usar a magia da chama/sombra como sua raça o faz. É considerado que eles nasceram de alguma forma “errados” – com uma alma que não deveria ser sua.

(Almas são um Big Deal em Arzanael, já que attorias e sournais descendem de espíritos da natureza e almas são literalmente visíveis em alguns momentos do dia).

Os attorias com “alma” de sournai são chamados de avrazas. Os sournais com “alma” de attoria são os enais.

Problema sendo: tanto attorias quanto sournais matam avrazas e enais assim que é percebido o que eles são, já que a própria existência deles é considerada uma ofensa. Isso quer dizer, claro, que a irmã de Noelle está morta há muito, muito tempo. Avrazas (e enais) geralmente são descobertos ainda jovens, e eliminados o mais rápido possível.

A ideia era que Noelle não fez nada para salvar sua irmã. Okay que na época ela era bem jovem (uns 10, 11 anos), mas a questão é justamente que apesar de adorar sua irmã, Noelle preferiu ficar em silêncio. Ela não questionou o que estava sendo feito ou porquê, justamente porque essa foi a narrativa alimentada a ela desde cedo. Quando ela encontra com a serpente uns dois anos depois, porém, ela decide salvar a serpente. Ou seja, ela salvou uma serpente gigante, mas não sua própria irmã.

E esse é um fato que vem futucando sua mente desde que ele aconteceu. A verdade é, Noelle não fez nada para impedir a morte da irmã, mas tal acontecimento deixou sim uma pulga atrás da sua orelha. Quando ela encontrou a Serpente, portanto, essa dúvida falou um pouco mais alto, mas agora, anos depois, ela ter dado o benefício da dúvida para um monstro é o razão de seu vilarejo estar destruído. Isso obviamente só reforçaria a crença de que sournais e serpentes (e avrazas) são ruins sim, e devem ser evitados. Mas Noelle não acredita nisso 100%. Acreditar nisso seria uma espécie de mecanismo de defesa; afinal de contas, se sournais, serpentes e avrazas são mesmo ruins, ela não poderia – não deveria – ter feito nada para salvar sua irmã, certo?

É algo que, de certa forma, a absolve da culpa que ela sente. Culpa por não ter salvado sua irmã, nesse caso, que convive junto com a culpa por ter salvado a Serpente. No fim das contas, Noelle não quer apenas matar a Serpente; ela quer entender a Serpente; para ela, Serpente acaba se tornando um “avatar” para sua irmã morta, e é sobre isso que o livro é de verdade. Se tudo ocorrer como eu quero, a maior questão do livro não vai ser como Noelle vai matar a Serpente, e sim quem a Serpente é e porque ela fez o que fez.

Para o plot isso simplesmente quer dizer que Noelle e a Serpente precisam se reencontrar o mais cedo possível. A minha ideia original é que o livro fosse mais sobre a jornada até onde a Serpente está, mas a coisa mudou tanto que, como mencionei, o confronto físico com a Serpente não deve ser a parte mais importante. É a interação entre Noelle e a Serpente que é mais importante.

(Essa mudança de foco me deu uma noção do que eu quero que o midpoint seja, mas por enquanto a ideia está confusa demais para colocar no papel.)

Por último tem a Mia. Mia é um caso engraçado porque eu tive a ideia de aproveitá-la para CF, mas não como um personagem presente (como já disse, apenas Lieth aparece em CF e Serpentkiller). Mia é quem irá sair da história sabendo ou pelo menos suspeitando de algumas verdades (Noelle as descobre e morre; Sephis já as conhece, mas tem suas razões para não contar para ninguém) e ela divulga isso tudo em livros. São esses livros, lá em CF, que ajudarão os personagens de lá a descobrir essas verdades.

Portanto, ela vai ter um desenvolvimento um tanto semelhante ao de Noelle; vai de ódio a sournais/serpentes/avrazas principalmente graças ao ataque da Serpente a seu vilarejo para compreensão sobre o que realmente aconteceu.


Com os arcos dos personagens definidos, fica mais fácil começar a trabalhar no plot de verdade; como eu sei o caminho de cada um, posso agora identificar onde na história eu posso colocar as cenas que iram questionar essas crenças e desafiar certos defeitos. Mas, bem, isso fica pro próximo post ^^

NaNoPrep #01 – O mundo e a ideia

Olá, gente! Hoje não irei postar um diário da escrita, mas sim um post (meio gigante) de uma série que irei fazer esse mês sobre minha preparação para o NaNoWriMo 2016. Não irei usar o segundo rascunho de Queen of Hearts para o NaNo desse ano justamente porque sei que NaNo não é para escrever bem, mas sim para escrever muito aka escrever o primeiro rascunho. Por isso decidi usar uma velha ideia minha que por enquanto estou chamando de Serpentkiller.

O post de hoje é sobre como cheguei à premissa que usei e sobre como adaptei o mundo para a história.


Já comentei aqui por aí que nunca planejo um elemento de uma história todo de uma vez só, o que quer dizer que eu tenho uma ideia, penso um pouquinho sobre possíveis personagens, pulo pra worldbuilding, pulo pra plot, volto pra personagem… enfim, é uma confusão. Para meu projeto pro NaNo desse ano, porém, as coisas foram um tantinho mais fáceis. Meu projeto se passa no mundo de outra história minha: ODS.

O MUNDO E A IDEIA

ODS (O Olho da Serpente) é literalmente o projeto da minha vida. Passei nove anos escrevendo o primeiro livro (aka escrevendo mil rascunhos pela metade) antes de finalmente aceitar que não estou no nível adequado para escrevê-lo agora (A Canção da Fúria (CF) o nome da série de O Olho da Serpente, tem, afinal de contas, sete livros com pelo menos 10 personagens POVs distribuídos entre eles). Foi essa desistência temporária que me levou a escrever QH no NaNo do ano passado, aliás, mas Serpentkiller não deixou minha mente.

Serpentkiller é uma espécie de prequel de ODS, mas escrevê-lo é um tico mais complicado do que um prequel normal seria, já que a história se passa 2.500 anos antes dos acontecimentos de CF e, bem, CF é literalmente sobre o fim do mundo. Em Serpentkiller, 2.500 anos antes, o mundo está de boa. Nada de terremotos capazes de engolir cidades, tempestades que duram dias ou erupções que dizimam florestas. Esses elementos existem, claro (o mundo, Arzanael, começou a morrer há muito tempo), mas não no nível de CF. Além disso, apesar das duas raças principais da minha história (os attorias e os sournais, antigamente elfos e draanils) serem imortais, apenas *um* personagem de CF aparece em Serpentkiller.

Mas por que isso?

Simples: a Fúria.

Fúria é o nome que os habitantes de Arzanael dão ao cataclismo que rachou o antigo continente. Sabe o mapa dos três continentes de CF que eu postei quase dois anos atrás no Chimeriane? A parte de baixo desse continente. Sabe o mapa de Serpentkiller que postei hoje no Instagram? A parte de cima. A Fúria aconteceu durante uma guerra entre attorias e sournais (conhecida como Guerra da Fúria), e graças a isso boa parte das duas raças acabou ficando presa na parte de baixo desse continente, que rachou novamente para formar os três continentes de CF. Esses attorias e sournais foram o que fundaram os reinos que aparecem em CF e são, no geral, descendentes dos attorias e sournais que aparecem em Serpentkiller. O único link entre as duas histórias, portanto, (além do próprio mundo) é o tal personagem que aparece nas duas.

E esse personagem é o Lieth.


Lieth Maedrion era, nas primeiras versões de ODS, o típico mentor sábio e bonzinho. Era ele quem encontrava Linnea/Nienna, a protagonista de ODS, e a mandava em sua aventura, com o bônus de não passar informações importantes porque “não é a hora certa” e similares. Obviamente, ele não servia pra nada além de ser um infodump ambulante e, percebendo isso, eu (desajeitadamente) tentei lhe dar um pouco mais de profundidade. Lieth teria tido uma mulher e filho antes da Fúria, e como eu não estava com o menor saco de enfrentar um drama de será-que-irei-encontrá-los-de-novo, decidi matar os dois. A mulher teria morrido no nascimento do filho e o filho teria morrido durante a Fúria. Tudo beleza, certo?

Errado.

Ter uma mulher e filho mortos, além de ser uma das únicas pessoas nascidas antes da Fúria, deu sim a Lieth um pouco mais de profundidade. A partir disso eu pude moldar um pouco mais sua personalidade: workaholic, extremamente fechado, gentil mas distante, estupidamente focado em salvar todo santo attoria dos Três Continentes. Mas ainda assim não era o suficiente e depois de ler um pouco sobre tropes, eu percebi que havia feito a coisa mais meh e cliché da existência: matei uma mulher para desenvolver um homem.

A mulher de Lieth (que eu nem sei se chegou a ser nomeada) morre apenas para ser uma fonte de manpain. E, bem, como alguns de vocês provavelmente se lembram, eu comecei a escrever ODS justamente porque estava cansado de histórias onde mulheres não serviam pra nada além de ajudar a desenvolver um homem ou ser o prêmio de um homem. Eu ainda precisava que ela morresse, porém, já que ainda assim eu não queria lidar com o drama todo de será-que-irei-encontrá-los-de-novo, então a solução era dar uma história para ela. Ela não morreria no nascimento do filho dos dois ou qualquer coisa semelhante. A mulher de Lieth teria uma história só dela e seria um personagem completa, mesmo que ela jamais fosse aparecer em CF. Mas como fazer isso?

Por sorte, na época eu participava muito das Competições de Texto (CTs) da Só Webs, uma antiga comunidade de escrita do falecido Orkut (isso foi em 2011/2012, btw). Nessas CTs, uma pessoa dava um tema, algumas palavras obrigatórias e um limite de tempo, e os participantes (qualquer pessoa que aparecesse no tópico podia participar) escreviam um mini-conto/texto com base nesse tema e tendo as palavras obrigatórias. Eu adorava as CTs e honestamente elas são responsáveis por um salto enorme de qualidade na minha escrita. Foi em uma dessas CTs que eu escrevi um mini-conto/texto sobre uma elfa que se sacrificava para matar um dragão que vinha aterrorizando seu vilarejo.

Eu nem lembro qual era o tema dessa CT ou se eu acabei no pódio com o mini-conto. Mas aquela história ficou martelando na minha mente durante um bom tempo. De imediato eu a ambientei no mundo de CF, Arzanael, e até cheguei a escrever algumas páginas. Nessa versão-teste, a mulher, uma elfa que decidi nomear Noelle, partiria em busca do dragão após ter seu marido/namorado/whatever assassinado por ele. Tudo certo, né?

Errado de novo.

Primeiro, porque não faz sentido para os dragões estarem aterrorizando os elfos de Arzanael (ou os attorias hoje em dia). Arzanael é um mundo feito de sombra e chamas, com dragões e attorias representando as chamas e serpentes gigantes e sournais representando as sombras. Dragões (e serpentes gigantes) são sim animais selvagens, e attorias e sournais domam dragões de vez em quando, mas ainda assim é praticamente impossível que o dragão ataque um vilarejo attoriano. Ou que uma serpente ataque uma cidade sournai. Simplesmente não acontece.

Mas uma serpente gigante atacando um vilarejo attoriano? Isso sim faz sentido.


A grande questão de Arzanael é que dragões e serpentes gigantes se odeiam, da mesma forma que o deus Dragão e a deusa Serpente se odeiam e que (segundo os próprios attorias e sournais) attorias e sournais se odeiam. Inimigos naturais, por assim dizer. A primeira Guerra da Fúria, portanto, aconteceu lá no início do mundo e não foi entre attorias e sournais, mas sim entre dragões e serpentes gigantes.

O mundo quase acabou antes mesmo de começar, attorias e sournais (e todos animais/plantas) quase foram extintos por estarem, sabe, no mundo, e por centenas de anos a superfície de Arzanael foi um campo de batalha com vulcões entrando em erupção, terremotos, maremotos e tempestades de sombras. Dragões e serpentes gigantes são as “válvulas de escape” das forças primárias de Arzanael (chama e sombra) e quando eles ficam furiosos, Arzanael corre o risco de entrar em colapso.

Mas os dragões venceram e as serpentes gigantes foram aprisionadas debaixo da terra. A superfície se acalmou, attorias e sournais evoluíram e se tornaram o que são hoje, e as serpentes passaram a ser quase uma lenda. Apesar de estarem presas, porém, eu poderia fazer com que fosse possível que uma ou outra escapasse de vez em quando. Logo, a fera que a elfa/attoria teria que matar não seria um dragão, mas sim uma serpente gigante que escapou do confinamento.

Já estava prestes a começar outra versão-teste dessa história (na época eu queria que fosse um conto ou uma novella) quando me veio a solução para meus problemas: e se Noelle fosse a mulher de Lieth?

O MUNDO E A IDEIA REFINADOS

Decidido que Noelle é a mulher de Lieth, as coisas ficaram bem mais fáceis. Agora sei exatamente onde a história se passa (500 anos antes da Fúria para que Lieth não seja tão velho assim em CF) e quando parei hoje para finalmente passar a ideia e o mundo a limpo, portanto, eu já tinha bastante de ambos. Os attorias são uma raça que não curte muito a ideia de ter uma família real, governo ou coisa do tipo (em oposição aos sournais que são tipo uma raça abelha/formiga); é justamente a Guerra da Fúria entre eles e os sournais que os forçam a se unificar sob uma única bandeira para poder se defender, mas como já falei, Serpentkiller acontece antes disso. Logo, Lieth e Noelle viveriam em um mundo onde cidade-estados e vilas independentes são a norma. Há sim famílias poderosas que exercem alguma influência – os Maedrion, attorias da linhagem do sol, e os Saedra, da linhagem da lua, por exemplo – mas não há uma autoridade certa e máxima. Attorias vivem como querem e resolvem seus problemas sem intermediação de praticamente ninguém.

(O que obviamente não dá certo quando há uma raça super organizada e disciplinada armada até os dentes como os sournais batendo na sua porta, o que os attorias perceberam eventualmente).

O mini-conto era sobre uma mulher se sacrificando para salvar seu vilarejo, mas Lieth é um Maedrion e os Maedrion são incrivelmente poderosos e definitivamente não moram em vilarejos. Eles seriam os “governantes” de uma cidade maior, provavelmente a maior cidade attoriana, e apesar de Lieth ser um parente bem distante dos Maedrion em seu trono, faria mais sentido que ele morasse por lá mesmo. Como fazer para ele e Noelle se conhecessem?

Eu poderia fazer com que Lieth saísse por aí viajando e por acaso a encontrasse, claro, mas embora Lieth apareça bem pouco em Serpentkiller (pelo menos eu acho que ele irá aparecer pouco) eu queria deixar bem claro a diferença entre o Lieth de Serpentkiller e o de CF. Em CF Lieth vive viajando para resolver os problemas de Narovia (reino attoriano dos Três Continentes), sendo um misto de espião e diplomata que tem pouquíssimo tempo para qualquer coisa que não seja seu trabalho. Em Serpentkiller, portanto, eu queria que ele fosse bem diferente disso, já que é justamente a morte de Noelle e do filho dois + o exílio forçado causado pela Fúria que faz com que ele mude bastante. O Lieth de CF é, como eu já disse, distante, fechado, mas gentil; o de Serpentkiller é mais amigável, aberto e descontraído, além de não gostar nem um pouco de batalhas ou de perambular por aí.

Se o Lieth de CF é um guerreiro, espião e diplomata, o de Serpentkiller é um escolar e um estudioso. Noelle é a guerreira de Serpentkiller, não Lieth, o que abre uma possibilidade interessante sobre como Lieth lidou com sua morte: se tornando como ela.

Mas se Noelle é uma guerreira, que tal fazer dela a chefe da guarda da cidade dos Maedrion? (Cidade, aliás, que se chama Driatta) E se Noelle fosse de um pequeno vilarejo, Tiena, e tivesse se mudado para Driatta por algum motivo? No caso, ela deixaria Driatta para trás quando soubesse do surgimento da Serpente, determinada a proteger – ou vingar – seu vila natal.

Com isso, eu já tenho a ideia central de Serpentkiller definida:

Uma guerreira attoriana deixa a cidade onde mora – e sua família – para trás para proteger seu vilarejo natal de uma serpente gigante.

Graças a isso eu já tenho uma noção de como a história começa (com Noelle e Lieth vivendo em Driatta + eles recebendo a notícia do ataque da Serpente) e termina (Noelle enfrentando a Serpente em Tiena). O único problema, claro, é que essa premissa não é muito interessante. Quantas histórias sobre pessoas partindo para tal lugar para derrotar tal monstro você conhece? Várias. A única diferença aqui é que geralmente essas histórias são sobre um homem ou um grupo de homens, e não sobre uma mulher casada e com filho. Mas fora isso, não há nada de original na premissa.

O que mais me incomodou com essa premissa de Serpentkiller, porém, foi a própria Noelle. Certo, dá pra entender uma pessoa tentando salvar seu vilarejo natal, mas só tem a Noelle pra fazer isso? Por que ela deixaria seu marido e filho pequeno para matar uma serpente gigante sozinha? Qual a motivação dela? Só salvar seu vilarejo? Essa é uma motivação bem fraca, não importa o quão importante o vilarejo e as pessoas nele sejam para Noelle. Eu teria que pensar em algo mais interessante para motivá-la.

Por sorte, não foi preciso pensar muito para arranjar uma motivação: culpa.

E se Noelle fosse de algum modo responsável pelo ataque da Serpente? E se ela se culpasse por isso? E se seu vilarejo já estivesse destruído e a Serpente estivesse avançando contra outros vilarejos, aumentando ainda mais sua culpa? E se ela se sentisse obrigada a parar a Serpente?

Isso deixaria as coisas mais interessantes, claro, mas por que diabos ela seria a culpada pelo ataque da Serpente?

Novamente, a resposta me veio bem rápido: ela teria poupado a Serpente anos antes. Quando pequena, Noelle teria caído no covil da Serpente e, surpreendentemente, a Serpente decidiu não matá-la. Na verdade, a Serpente lhe fez companhia enquanto os pais da garota a procuravam. Quando escapou do covil (uma caverna subterrânea), portanto, Noelle decidiu retribuir o favor e não contou a ninguém sobre a Serpente. Se a descobrissem ali, com certeza chamariam um dos poucos cavaleiros de dragão para acabar com ela.

Mas então, anos depois, puff, a Serpente destrói seu vilarejo.

E Noelle sabe que poderia ter impedido isso.

Essa ideia complementar levantou várias perguntas interessantes para a história. Se serpentes naturalmente odeiam dragões e são conhecidas inimigas dos attorias, por que essa Serpente escolheu poupar a vida de Noelle? E se ela poupou a vida de Noelle, por que está atacando agora, quase trezentos anos depois? Por sorte – ou porque meu subconsciente gosta mesmo de refletir sobre as mesmas coisas – as maiores questões levantadas são as mesmas de CF: são as serpentes realmente maléficas? Os attorias e os sournais são mesmo inimigos naturais? É possível paz entre sournais e attorias e entre serpentes e dragões? O que iniciou essa rixa? Por que ela ainda existe? Como acabá-la?

Com isso, a premissa de Serpentkiller evolui:

Uma garota attoriana é poupada por uma serpente gigante – inimiga mortal de sua raça – e em troca mantém sua existência em segredo, sabendo que os cavaleiros de dragão não hesitariam antes de matá-la. Trezentos anos depois, a serpente gigante deixa seu esconderijo e inicia uma onda de destruição enquanto os dragões estão longe e os attorias se encontram indefesos. A garota, agora uma guerreira da grande cidade de Driatta, deixa seu lar – e sua família – para enfrentar a Serpente que destruiu seu vilarejo, mas que um dia salvou sua vida.

Essa nova motivação da Noelle adiciona várias coisas à história, além de torná-la uma personagem mais interessante. Attorias são ensinados desde cedo que serpentes e sournais são maléficos, mas uma serpente salvou a vida de Noelle – apesar de agora estar destruindo seu povo. Mas só o fato da serpente ter salvado sua vida já faz com que essas certezas – serpentes são maléficas – caíam por terra, ou pelo menos faz com que rachem. Se serpentes são maléficas, por que essa Serpente a salvou? Há algo de errado no modo como attorias tratam e veem serpentes e sournais? Se há, por que eles pensam desse jeito? Quem começou isso?

Como já mencionei em outras matérias, história é um tema que curto muito em meus projetos. Ou, mais especificamente, como história é moldada para controlar o que as pessoas pensam. Dá pra ver isso fácil fácil aqui em Serpentkiller e, bem, lembra da importância do tema? Ao explorar as motivações de Noelle eu já consegui arranjar um para Serpentkiller, mas outros são possíveis também: o que significa ser um monstro, como preconceitos moldam nossas ações, etc. Tudo isso dá um pouco mais de profundidade à história.

No fim das contas, eu já tenho meu mundo e minha ideia central. Agora está na hora de trabalhar um pouco nos personagens, mas isso fica para o próximo post ^^